Sunday, September 23, 2012


a vida como uma Viagem em que se vive, se morre e se renasce a cada dia.
a vida como uma Viagem de silêncios e de sinais. escritos em cada gesto e em cada palavra numa esperança renovada. para além do tempo. para além de todos nós.




Fábrica Braço de Prata - Lisboa - 2012.06.16 


Faial - Açores - 2012.08.25



Hotel Moliceiro - Aveiro - 2012.09.22

Thursday, June 10, 2010

a um querido amigo que foi de viagem...

 por Álvaro de Campos

Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reacção aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança fictícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio! 


Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se apercebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam na taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

Sunday, May 02, 2010

O Papalagui - dicursos de Tuiavii de Tiavéa, nos mares do Sul - I

"O «Papalagui» - ou seja o Branco, o Senhor - é este o nome dado aos discursos do chefe de tribo Tuiavii de Tiavéa, nos mares do Sul. (...) Os leitores particularmente fanáticos da nossa civilização irão decerto achar a sua maneira de ver ingénua, e até mesmo pueril, ou parva; no entanto, mais do que uma frase de Tuiavii deixará pensativo o leitor mais modesto, pois a sabedoria de Tuiavii não emana de um saber erudito, mas é mais uma inocência de fonte divina."
"(...) Tuiavii sentiu desejo de conhecer a longínqua Europa (....) e juntando-se a um grupo visitou, um após o outro, todos os países europeus..."
"Através dos seus olhos descobrimos a nossa imagem, e isso com uma simplicidade que já perdemos."
Discursos recolhidos e tradizudos por Erich Scheurmann

pequenos excertos:

De como o Papalagui cobre as carnes com inúmeros panos e esteiras

O Papalagui esforça-se o mais possível por enconbrir as suas carnes. (...) Tudo quando se refere à carne é pecado. Assim fala o Papalagui. (...) Até mesmo aquelas partes com que se fazem os filhos, para maior alegria da vasta terra, são pecado. (...)
É por essa razão que o corpo do Papalagui está, da cabeça aos pés, coberto de tecidos, pêlos e panos tão cingidos e grossos que jamais olhar humano ou raio de sol poderá atravessá-los (...).
Como o corpo das mulheres e das raparigas anda sempre tapado, os homens e os adolescentes ardem em desejo de ver as suas carnes: o que é muito natural. Pensam nisso noite e dia e falam muito das formas do corpo das mulheres e das raparigas, e sempre como se o belo e natural fosse um grande pecado e só pudesse ser apreciado nos sítios mais escuros. (...) Poderá haver mais estúpido pensar? (...)

Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há

O Papalagui mora, como o mexilhão do mar, dentro duma conha dura. Vive entre pedras, como a escolopendra entre fendas da lava. Tem pedras a toda a volta, de lado e por cima. A sua cabana assemelha-se a um baú de pedra posto ao alto; um baú cheio de cubículos e de buracos. (...)
É quse incompreensível que um homem não morra em tal sítio, que o desejo de sair dali o não transforme em pássaro, que lhe não cresçam asas para poder tomar impulso e levantar voo (...).
O Papalagui é um indivíduo de um bom senso algo singular. Faz imensas coisas sem sentido que o põem doente, e apesar disso gaba-se e vangloria-se delas."

Do metal redondo e do papel forte

"A grande divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro. Todos os homens brancos pensam nisso, até mesmo a dormir. Quase todos eles sacrificam a saúde ao metal redondo.
Pensam nisso todos os dias, a toda a hora, a todo o instante. Todos, todos eles o fazem! (...)
Descobri uma única coisa pela qual se não pede dinheiro na Europa, coisa que cada um pode fazer as vezes que quiser: respirar o ar."
Sem dinheiro, tu és, na Europa, um homem sem cabeça e sem membros; não és nada.(...)"

Sunday, February 28, 2010

artigo de Paulo Varela Gomes

Morrer como um touro

O Ministério da Cultura resolveu criar uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura a pretexto de que lidar touros seria uma tradição cultural portuguesa a preservar. Mas a tradição é mais antiga, do tempo em que humanos e animais lutavam na arena para excitar os nervos da multidão com o sangue e a morte anunciada. A piedade, que é um valor mais antigo do que Cristo, veio, na sua interpretação cristã, salvar disto os humanos. Esqueceu-se, porém, dos animais.
Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece ir desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu. Vêm os homens e incitam-no. A multidão agita-se e delira com o sangue. O touro sabe que vai morrer. Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais “cheiram” a morte iminente. Por desespero, coragem ou raiva (não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? ah sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou.
Os toureiros têm pose que se fartam (e com a qual fartam toda a gente). Pose de *hombre*, pose de macho. Mas os riscos que de facto correm são infinitamente menores que a sorte que inevitavelmente espera os touros, que o sofrimento e a desorientação que infligem aos touros para o seu próprio prazer e o da multidão. Dá vontade de dizer que quem se porta assim, quem mostra orgulho de se portar assim, tem entre as pernas, e não apenas literalmente, órgãos bem mais pequenos que aqueles que os touros exibem. Os toureiros são corajosos mas entram na arena sabendo que haverá sempre quem os safe, senão à primeira colhida, então à segunda. Às vezes aleijam-se a sério e às vezes morrem, o que talvez prove que os deuses da Antiguidade são justos, vingativos e amigos de todos os animais por igual. Os touros, esses, não têm ninguém que os vá safar em situação de risco, estão absolutamente sós perante a morte. Querem os toureiros ser *hombres* até ao fim?
Experimentem ser tão homens como eram os homens e os animais na Antiguidade: se ficarem no chão, fiquem no chão. Morram na arena. É cultura. A senhora ministra da Cultura certamente compensará tão antigo costume.
Também era da tradição, em Portugal por exemplo, executar em público os condenados, bater nas mulheres, escravizar pessoas. Foi assim durante milénios. Ninguém via mal nenhum nisso a não ser, confusamente, com dúvidas, as próprias vítimas. Até que a piedade, na sua interpretação moderna e laica, acabou com tão veneráveis tradições.
Que será preciso para acabar com a tradição da tourada? Que sobressalto do coração será necessário para despertar em nós a piedade pelos animais?

Paulo Varela Gomes (Historiador), “Cartas do Interior”, Público, 27.02.2010, P2, p.3.


Saturday, November 28, 2009

Saber Viver - Cora Coralina

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais para nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser :
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar.


Thursday, August 20, 2009

limpidez de estrelas
à volta de uma fogueira nas fragas
magia de um tempo esquecido
em que a limpidez se reflecte nos rostos de todos nós
contadores de estórias infinitas
as mãos tacteiam o fogo
que do peito se solta
não creio que amanheça
a magia permanecerá em nós
minuto após minuto
dos rostos fracamente iluminados pelas labaredas
sonhos desgovernados na ponta dos dedos
calor que se aconchega às pernas
(e à alma)
tenho linhas e linhas de estórias para contar-vos
sob a viola do marco
palhaço que a vida transformou em todos nós
nas rédeas de um tempo solto
que a realidade jamais roubará
tenho estórias na ponta dos dedos
acolhe-as em tuas mãos
conta-as no teu sorriso dedilhado
o universo beberá as tuas impressões
impregnadas de bondade e anseios
são estes os momentos que permanecem
para sempre na memória inapagável de cada um de nós
são estes os momentos de magia
que mais tarde recontaremos em cada fogueira extinta
são estas as estrelas que levamos connosco
as estrelas e os sorrisos inocentes
que em nossos peitos permanecerão

md

Sunday, July 19, 2009

recado

assisto diariamente a uma colagem de peças desordenadas
não creio que o sentido se encontre
nessas névoas trespassadas
revolteios e revoltas
de quem nada sabe
e se perdeu

marta dutra

Saturday, May 09, 2009

destino



Ter um destino é não caber no berço onde o corpo nasceu, é transpor as fronteiras uma a uma e morrer sem nenhuma.

Miguel Torga, in Fernão de Magalhães, Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, 1999.

Thursday, April 23, 2009

e não dizemos nada...

Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, souba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Maiakovski (1893-1930)


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)


Tuesday, March 31, 2009

quando a última árvore tiver caído...



Quando a última árvore tiver caído,

Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe for pescado,
Vocês vão entender que dinheiro não se come.
(Greenpeace)


Sunday, March 01, 2009

Sabe o que come em Portugal?

Assista à reportagem:

(só é de facto cego quem não quer ver)


Touradas (ou acerca do fim das)

Viana do Castelo é oficialmente declarada a primeira “cidade anti-touradas” do país

É oficial. Depois de recentemente ter tomado uma decisão extraordinária no sentido de comprar a praça de touros local e de a transformar num centro de ciência viva, onde mais nenhum animal seria torturado, a Câmara Municipal de Viana do Castelo, na pessoa do seu Presidente, Defensor Moura, foi alvo de uma tremenda onda de louvor, agradecimento e apoio, nacional e internacional, gerada pela ANIMAL, que levou este autarca a declarar à comunicação social que acabar com as touradas em Viana do Castelo “foi a medida mais popular” que tomou, tendo recebido mais de mil mensagens de agradecimento e apoio vindas de todo o mundo.

Nessa mobilização de apoio e encorajamento, a ANIMAL apelou também a todos os seus membros e apoiantes que pedissem ao Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo para dar o passo natural seguinte e vital, que seria declarar oficialmente a cidade de Viana do Castelo a primeira cidade anti-touradas de Portugal, deixando de autorizar a realização de touradas em espaços públicos da cidade e impedindo a realização destes espectáculos sanguinários em todos os sentidos em que o município o possa fazer. E foi isso que aconteceu ontem, quando o Executivo da Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu, como noticia o “Público” (leia a notícia “Viana do Castelo é a primeira “cidade anti-touradas” do país”, em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1367028), dar esse fundamental passo, declarando esta a primeira cidade oficialmente anti-touradas de Portugal, juntando-se às 53 cidades e vilas espanholas e às 3 localidades francesas que já foram oficialmente declaradas cidades ou vilas anti-touradas pelos respectivos municípios.

Segundo noticiou o “Público”, “Para [Defensor] Moura, a medida faz todo o sentido por ir de encontro ao perfil de cidade saudável adoptado há mais de uma década, especialmente desde que o município integra as redes, portuguesa e europeia, de Cidades Saudáveis. Para além do respeito pelos direitos humanos, preservação do património natural e promoção dos valores ambientais, o executivo socialista considera que o espírito, de cidade moderna e progressista, deve estender-se ao respeito pelos direitos dos animais”. Ainda segundo noticiou este diário, o Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo declarou que “A defesa dos direitos dos animais não é compatível com a realização de espectáculos de tortura, que provocam sofrimento injustificado”.

Thursday, February 26, 2009

Saturday, February 07, 2009

uma saudade


fOTO: Francisco Oliveira inwww.olhares.com/fraoli


há dias em que queremos dar tudo aos outros
mesmo aquilo que os nossos olhos não alcançam
há dias em que tudo parece pouco
a vida demasiado pequena
para abarcar toda uma experiência
fica uma saudade
de quem nunca mais veremos
e uma prece sentida
que se espera levada numa abraço

Thursday, January 08, 2009

Fim de Ano Comunitário no Retiro da Fraguinha: chuvoso e frio mas muitíssimo caloroso!

(fOTOS: Gualdino Correia)


















Retiro da Fraguinha: http://www.pesnaterra.com/

Sunday, December 14, 2008

Não sei se é amor...




Não sei se é amor
desejo
ou apenas
uma forma de morrer
tão diferente
e tão igual a tantas outras

Sei apenas
que me fazes falta
como se eu
fosse gaivota
e não houvesse mar
ou como se fosse
andorinha
numa
Primavera
interdita



Orlando Jorge Figueiredo
Dezembro 2008

Sunday, November 16, 2008

de José Saramago e da lucidez

Excerto de entrevista a José Saramago, Jornal de Letras

JL: A Viagem do Elefante é uma alegoria, amargamente irónica, da natureza humana?
JS: Sim. Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termos grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.

[e ainda acerca do livro e do ter sido escrito durante o período em que esteve doente]

JL: Foi uma convulsão?
JS: Creio que sim, que se passaram coisas estranhas nesse período em que estive doente. Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular. Eram brilhantes como se fossem corpos celestes no espaço.

JL: Que pontos eram esses?
JS: Tive a certeza que esses quatro pontos eram eu.

JL: Imaginou essa espécie de transposição ou redução quântica?
JS: Não foi uma imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. E tenho que dizer que isso não me pertubou nada. Para ser franco, até tenho pena de os ter deixado de ver.

JL: E como teve a certeza de que era esses pontos?
JS: Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos, que a complexidade física e mental do ser humano se poderia reduzir a esses pontos que nem sequer eram regulares.

JL: O que descreve parece a experiência absoluta da relativização da existência diante da morte.
JS: É uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos. Como é que isso se produziu, não me perguntem.
(...)

Sunday, October 26, 2008

Monday, October 06, 2008

Renascer


























do mar
nasce o teu abraço

no teu porão
sonho
a vigília das noites futuras

neste barco
onde está escrita
toda a tua vida
as ondas devolvem-me
os segredos do teu olhar

não há lua
não há mar

apenas o cais
onde desembarco
e recomeço

Orlando Jorge Figueiredo

Saturday, October 04, 2008

no dia internacional do animal




Na Foto: Faísca, o espreguiça



Declaração Universal dos Direitos dos Animais

PREÂMBULO

Considerando que todo o animal possui direitos,
Considerando que o desconhecimento e o desprezo destes direitos têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e contra a natureza,
Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo,
Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a perpetrar outros.
Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado ao respeito dos homens pelo seu semelhante,
Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais,
PROCLAMA-SE O SEGUINTE:
Art. 1 - Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência.
Art. 2
1.Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2.O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os seus conhecimentos ao serviço dos animais.
3.Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do homem.
Art. 3
1.Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos cruéis.
2.Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.
Art. 4
1.Todo o animal pertencente a uma espécie selvagem tem o direito de viver livre no seu próprio ambiente natural, terrestre, aéreo ou aquático e tem o direito de se reproduzir.
2.toda a privação de liberdade, mesmo que tenha fins educativos, é contrária a este direito.
Art. 5
1.Todo o animal pertencente a uma espécie que viva tradicionalmente no meio ambiente do homem tem o direito de viver e de crescer ao ritmo e nas condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie.
2.Toda a modificação deste ritmo ou destas condições que forem impostas pelo homem com fins mercantis é contrária a este direito.
Art. 6
1.Todo o animal que o homem escolheu para seu companheiro tem direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
2.O abandono de um animal é um ato cruel e degradante.
Art. 7 - Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.
Art. 8
1.A experimentação animal que implique sofrimento físico ou psicológico é incompatível com os direitos do animal, quer se trate de uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer que seja a forma de experimentação. 2.As técnicas de substituição devem de ser utilizadas e desenvolvidas.
Art. 9 - Quando o animal é criado para alimentação, ele deve de ser alimentado, alojado, transportado e morto sem que disso resulte para ele nem ansiedade nem dor.
Art. 10
1.Nenhum animal deve de ser explorado para divertimento do homem.
2.As exibições de animais e os espetáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.
Art. 11 - Todo o ato que implique a morte de um animal sem necessidade é um biocídio, isto é um crime contra a vida.
Art. 12
1.Todo o ato que implique a morte de um grande número de animais selvagens é um genocídio, isto é, um crime contra a espécie.
2.A poluição e a destruição do ambiente natural conduzem ao genocídio.
Art. 13
1.O animal morto deve de ser tratado com respeito.
2.As cenas de violência de que os animais são vítimas devem de ser interditas no cinema e na televisão, salvo se elas tiverem por fim demonstrar um atentado aos direitos do animal.
Art. 14
1.Os organismos de proteção e de salvaguarda dos animais devem estar presentados a nível governamental.
2.Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem.
(*)A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi proclamada pela UNESCO em sessão realizada em Bruxelas, Bélgica, em 27 de Janeiro de 1978

Sunday, September 14, 2008

E sobretudo, faça rimas ricas, ainda que de realidades pobres

Texto escrito em 06/08/07


Há textos que não aduzem à alocução mental produtiva.
Nem margens dão a um laivo de reflexão limitada.
São pensamentos pobres colhidos em terra improdutiva.
Idéias verdes, não maduras, que não aguardaram serem colhidas.
Sementes de frutos nobres que jamais foram cultivados.

Mas toda idéia, que por natureza é perecível,
É também grávida da dádiva de ser reciclada.
Manifeste-se em palavras, com mestria, sem academicismos.
Misture, mescle, pinte idéias e símbolos prenhez de aforismos.
E sobretudo, faça rimas ricas, ainda que de realidades pobres.
Pois é da palavra simples que sai de ti,
Que se alforria da alma a tua parte mais nobre.

Martius de Oliveira

Monday, September 01, 2008

em Retiro

ainda existem sítios assim. onde o tempo pára e apetece ficar num aconchego.


Retiro da Fraguinha - Serra da Arada - http://www.pesnaterra.com/

Pés na Terra - Turismo, Desenvolvimento Rural e Valorização Humana


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Xavier: o cão de guarda do sítio. conseguiu sobreviver ao rigoroso Inverno da serra sózinho, de finais de Janeiro a Maio.

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Friday, August 22, 2008

das férias o regresso


Castelo Branco - Faial - fOTO: Gualdino Correia
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da janela do acordar - Pico - fOTO: Gualdino Correia
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apresentação do livro Vago - o Olhar - Horta

da esq. para dir.:

Dr. Luís S. Bento, Prof. Ermelinda Nunes, Prof. Maria do Céu Brito, Marta Dutra, Prof. Victor Rui Dores

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Saturday, August 02, 2008

Definição de Avó

Definição de Avó
Artigo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do
Cartaxo.

'Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros.
As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores
bonitas nem as lagartas.
Nunca dizem 'Despacha-te!'. Normalmente são gordas, mas mesmo assim
conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior.
As Avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes.
Quando nos contam historias, nunca saltam bocados e nunca se importam
de contar a mesma história várias vezes.
As Avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó,sobretudo se não
tiver Televisão'.




Sunday, July 06, 2008

why

quanto vive o homem?

Quanto vive o homem, por fim?
Vive mil anos ou um só?
Vive uma semana ou vários séculos?
Por quanto tempo morre o homem?
Que quer dizer para sempre?
Pablo Neruda

Thursday, July 03, 2008

Tertúlia "A Poesia não tem nome"


A Pó de Ser e o Hotel Moliceiro têm o prazer de o convidar para a primeira Tertúlia Pó de Ser: “A Poesia não tem nome”, que terá lugar no dia 11 de Julho pelas 21h30, no Hotel Moliceiro, em Aveiro.

Desafiamo-lo desde já a trazer um poema (que poderá ser da sua autoria) e a partilhá-lo connosco.

Consigo esta festa de palavras transformar-se-á num poema!

As nossas saudações poéticas.

Pela Organização
Marta Dutra


Contactos: Marta Dutra – martadutra7@gmail.com / 919297478/ www.martadutra.blogspot.com
Pó de Ser - casa.do.po.de.ser@gmail.com / 966993861 / 914812321 / 912224447/ www.encontrosterapeuticos.blogspot.com

Monday, June 30, 2008

formas distintas de envelhecer

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Envelheço antes de tempo

Lamento as coisas que não disse
e os projectos que não realizei
numa segurança afinal insegura
Os meus dedos já não têm cor
os meus olhos deixaram de ver
perdi a noção das coisas evidentes
Como eu lamento não ter sido capaz
de ser eu própria
presa a convenções e opiniões
O meu corpo já não acompanha
as viagens que realizo aqui sentada
A realidade é esta: envelheci!
e só agora o percebo
quando as minhas pernas não me levam onde quero
quando me esqueço de quem sou

Marta Dutra in Vago - o Olhar

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Hoppipolla music video by Sigur Ros
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Wednesday, June 25, 2008

Aguarela

fOTO: F. Monteiro in http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=22985


Campos de Aveiro.
Manchas verdes de arroz,
E a vela dum barco moliceiro
Que um pirata ali pôs.

A servir de moldura,
O velho mar cansado;
E um céu alto a descer e a ter fundura
Na quilha reluzente de um arado.

Miguel Torga

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Thursday, June 05, 2008

Revisitando Torga - II

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São Leonardo de Galafura

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Coimbra, 1 de Janeiro, de 1943

Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:

- Boas entradas!

- Igualmente! - responde o contemplado. E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas moi os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.

Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora, - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca: -Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!

Que me lembre, apenas Raúl Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. (...)

Miguel Torga, Diário II

Friday, April 11, 2008

Revisitando Torga - I

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fOTO: Manuela D. L. Ramos - http://dias-com-arvores.blogspot.com/



S. Martinho de Anta, 5 de Março de 1934

Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende - é esta. A comida que o meu estômago deseja - é esta. O chão que os meus pés sabem pisar - é este. E, contudo, eu não sou já daqui. Pareço uma destas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam à terra natal.

Miguel Torga, Diário I

Wednesday, April 09, 2008

Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

Natália Correia, Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Saturday, March 29, 2008

Arribo à Ilha...



Arribo à Ilha sob um céu acolchoado de nuvens densas. Só nos píncaros se acha embuçada de negrume a serra de Água de Pau. No sobejo da encosta, virada à cidade e ao aeroporto, escorre tinta azulácea, a cair no roxo. Mesmo mutilada, sinto-a revestida da majestade olímpica de deusa que ali persiste para escorar e dar sentido à paisagem de que participa. O casario da Lagoa detém-se num sorriso desabrochado, alumiando o fundo do horizonte. As chaminés das fábricas espetam-se no algodão churro da atmosfera abatida. Ando de Ilha às costas. Escorre-se-me em suor por todo o corpo. Sempre que se manifesta em pesadume exsuda e transpira-nos...


Cristóvão de Aguiar, Nova Relação de Bordo


Thursday, March 20, 2008

da Poesia hoje


Aqui onde me encontro o sino toca de quarto em quarto de hora. E hoje não o sei dizer de outra forma: este som que me invade e ecoa cá dentro como um gongo que me ensurdece.

Lembro: “A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.” (Eugénio de Andrade, A poesia não vai)

Penso: a poesia não tem definição, sente-se em todas as coisas. E hoje não a sei dizer de outra forma.

Saturday, March 01, 2008

ontem em Fânzeres - obra premiada: Vago - o Olhar

Ontem vivi um momento muito especial em Fânzeres num acolhimento enternecedor.

--
Sou eu aqui sentada no cimo da rocha, cuja silhueta os navios descortinam ao longe quando cortam aquela linha do outro lado do horizonte.
Sou eu aqui, o mundo a meus pés, ao antes, o mar. Fico nele e ele em mim. Sou apenas mais uma sombra que o céu tolera, sem asas de pássaro, sem pio, sem grito, sem esvoaçar. Sou apenas eu aqui sentada, eu e o mar, eu e o mundo, e talvez um navio que me veja ao longe.


Marta Dutra, Vago- o Olhar

17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres

Thursday, February 21, 2008

fica em ti

certezas não tens
mas é teu o caminho
das estrelas
luas sóis e mares
de luz
é teu o universo
finito no teu corpo
é teu o abraço
para lá do tempo
fica em ti
uma voz doce
e uma calma que
apaga o lamento
fica em ti
um suave respirar
e uma esperança
sem fim

para a Natália

Wednesday, February 06, 2008

Thursday, January 31, 2008

biblioteca

gosto desta calma de biblioteca. deste sussurrar para não acordar os livros. mundos tão díspares que se interpenetram nas inúmeras prateleiras: o rio triste com o baile, o grão-mestre dos templários com confissões de uma farmacêutica, o sorriso aos pés da escada com o curral das bestas. loucura de quem escreve. loucura de quem lê. sussurro para não acordar os livros.



Thursday, January 24, 2008

dias desiguais

fOTO: Leonardo breviglieri gepp in http://www.olhares.com/leogepp

o olhar dos cães abandonados
o olhar dos cães às vezes
assemelha-se a um mineral escuro
a uma pedra funda e despedaçada
toca-nos como um olhar humano
como se desesperado daquilo
que não tem salvação
prende a alma
prende-a por muito tempo
às vezes penso que é a morte
que ali nos olha
apenas ela
à espera de alguém para mostrar-se
outras vezes esse mesmo olhar
é um fogo assustador
lavra do fundo dessas retinas pobres
acordando em nós
a angústia de sempre
aquela tão simples verdade que diz
- podíamos ser o contrário, ele e eu -
.
«Any Other Name», Thomas Newman
às vezes tropeçamos
na mais completa tristeza
- é sempre tão bela a tristeza -
algo toca dentro de nós
como um sopro subtil do tempo
antes um pouco
de marcar-nos para sempre
João Ricardo Lopes, dias desiguais

Cabeçudos e gigantones

Tua certeza eleva-se e recorta-se
no céu como um guindaste.
Hirta, metálica, adstringente e fria,
como a encontraste?

Se eu devesse guardar-te respeito por teres um sorriso amável,
por serem castanhos os teus olhos ou por pisares o chão de certa maneira,
então respeitaria também a tua certeza inabalável
e dela te pediria um farrapo para o arvorar em minha bandeira.

Faz-me pena a tua certeza como se tivesses sofrido um acidente,
como se te visse estendido num leito, impossibilitado de te mexeres.
Em tua certeza, cadeira de rodas, fazes-te conduzir piedosamente,
e os caminhos passam por ti sem tu passares por eles, e sem os veres.

Embrulhado na tua certeza, de rosto voltado para a parede,
adormeces sorrindo enquanto a vida, aos borbotões exulta.
Foguete de lágrimas, meandros sem rectas, catapulta,
veio de água que afoga e nunca mata a sede.

António Gedeão

Monday, January 07, 2008

Carta a Fátima

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Saturday, January 05, 2008

da Caruma


ainda sinto e ouço a Caruma: "Minhas senhoras e meus senhores os carrumerros!" :-) e nós imbuídos nessa magia que aquece a alma... novos, velhos e crianças num espaço comum, num movimento compreensível a poucos. leitura da vida, evolução, descoberta interior, numa linguagem falada que parece mística ou talvez uma língua nova se tenha inventado pensa quem não a entende. ah! dêm espaço, queremos mostrar a possibilidade no meio de tantas vivências multifacetadas. ah! se não a entendes é porque talvez ainda estejas na dança dos casacos e egos. olha para além de ti, despe-o e voa!!!... só assim poderás perceber que as árvores também podem descer do céu... e deixar a poesia fluir, viver...
obrigado Madalena Vitorino

Friday, December 07, 2007

Somos folhas breves

Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


José Saramago, Os Poemas Possíveis

Tuesday, November 20, 2007

esboço


fOTO: Ricardo Costa in http://www.olhares.com/touchdelight

desenho-te um esboço
recortado
vislumbres
de uma criança
que te estende uma flor
e te segreda
a enormidade do mundo
a cada dia
um gesto
uma imagem
e um sol que se desprende
no olhar de uma criança
com um sorriso
e uma flor estendida

para o João Ricardo Lopes

reticências - João Ricardo Lopes

a cortina foi empurrada
um pouco para a esquerda
apenas um pouco, mal se nota.
ela, a do rosto, é bonita
mas não a direi assim:
di-la-ei antes pensativa, circunspecta
poisando os olhos decerto aí
ali, quem sabe no alvoroço de que esquina.
tem (terá) trinta anos ou menos.
menos, sem dúvida:
vinte e cinco talvez.
debaixo de algum glacial da expressão
vêem-se a espaços picos de luz
e são eles que esforçam por abrir
por ser a difícil clareira
contra razões tão cerradas.
a cortina voltou a tapar tudo
não se vê o rosto dela
não se sabe o quê, como ou porquê
somente isto, somente a noção
de que não existem pontos finais —
reticências quando muito


por João Ricardo Lopes

Friday, November 09, 2007

palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão"

fOTO: Hélder Freitas in www.olhares.pt
palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão" em santa maria, de Daniel Gonçalves
esta ilha é uma ilha de solidão mas não é a
ilha da solidão
esta ilha é uma ilha de solidão quando olha o
mar em sua volta
quando se fecha para dormir sobre a eternidade
quando se leva para fora no silêncio adocicado
de quem parte
esta ilha é uma ilha de solidão porque
queremos que assim seja
porque se ela pudesse abraçava-nos
pegava em nós e dava-nos o seu pico mais alto
para morarmos
e vermos que o mundo em volta é que é
pequeno
esta ilha é uma ilha de solidão e gosto dela
assim
quando me dá todo este tempo para reviver
quando me aproxima as coisas mais pequenas
desta boca que tem tanta sede
esta ilha é uma ilha de solidão mas não nos
deixa sozinhos
porque essa solidão é só mais uma maneira de
colorir o espaço em branco
o espaço em azul o espaço em verde
o espaço em cor de sonho a cor em espaço
esta ilha é uma ilha tão grande que cabe nela
toda a solidão do mundo
porque a solidão do mundo é do tamanho de
uma palavra
uma palavra que se tiver que rimar rima com coração
e rima com silêncio e rima com o outono e com
o inverno
e com a primavera e com o verão
e rima sobretudo com abraço porque o abraço
é que dá descanso à solidão
esta ilha é a ilha de todas as ilhas onde se
espera pela manhã seguinte
a ilha onde temos esta solidão virada do avesso
que é pensarmos que ninguém nos ouve
e ninguém quer saber em que parte do oceano estamos
esta ilha é a ilha de todas as ilhas que pensam
que são a ilha da solidão
e há tantas ilhas assim e tão mais pequenas
ilhas que às vezes trazemos fechadas nas
nossas mãos
esta ilha é tudo isto e tanto mais
porque nenhuma palavra sabe o que dizer
quando tem para dizer o que esta ilha tem
para dar
e só me apetece dizer que esta ilha é a ilha do
amor
e por ser assim é a ilha da poesia
e das aguarelas que mostram o lado de fora
por dentro do lado íntimo das coisas
e esta ilha somos nós
agora
com a solidão lá fora
à espreita do que estamos aqui a fazer
Daniel Gonçalves

Wednesday, November 07, 2007

Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres

Foto: Emanuel Carreiro in www.olhares.pt
17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres para a obra:

"Vago- O Olhar" - Marta Dutra (a ser editada em breve)

Tuesday, November 06, 2007

CARUMA - Um projecto de arte comunitária



Caruma são folhas secas em forma de flecha que descem dos pinheiros, vestem o chão e picam. Caruma é um espectáculo com uma dimensão privada e outra pública, em que ambos os espaços se misturam numa paisagem que mexe.
É sobre o que está na margem e no centro.

Pessoas da rua, bailarinos e músicos põem o público em contacto com uma comunidade que é sua, confundindo-o e iluminando-o nessa ideia de unir o centro da sua cidade às margens da arte. O público, uma parcela dessa comunidade, revê-se e descobre-se, adiciona algo de seu ao espectáculo sem o saber previamente. Testemunha a transformação dos seus pares que nessa noite são outros.

Pequenos ninhos de público envolvem acções feitas em formato de concluios, conversas de saleta, solos dançados e contados, onde a intimidade da relação espectáculo/público se acende.
(...)
Caruma é um espaço para anjos nascidos na terra e humanos caídos do céu. Bailarinos, música, acções em catadupa saem de um tapete de caruma. Emergindo do centro da vida, recontam-se no fluxo de um tempo musical.

no CineTeatro de Estarreja

Friday, November 02, 2007

A FLOR

Rodrigo


Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que deus faz uma flor!



Almada Negreiros

Tuesday, October 16, 2007

Os paraísos artificiais - Jorge de Sena

fOTO: Luís Caçador in http://www.olhares.com/lfcacador
.
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é iniefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena (1947)

Friday, October 12, 2007

Para Sophie - João Ricardo Lopes

fOTO: Guido Caldeira in http://www.olhares.com/Guido

.

Há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos. E os dias que nele se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E são por isso dias de uma distância sem medida nem tempo, dias em que nos enclausuramos para encontrar as palavras certas com que havemos de dizer há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos…


Sophie, estes são os contornos imprecisos das palavras e elas nada valem sem que nelas permaneças. Os dias que agora se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E a distância é como essa agulha de dor que nos dobra no pior dos silêncios e nos diz haver sempre um exílio de que somos parte e não sabemos e dias que se arrastam e hão-de arrastar em contornos imprecisos e palavras…


João Ricardo Lopes