Sunday, May 02, 2010

O Papalagui - dicursos de Tuiavii de Tiavéa, nos mares do Sul - I

"O «Papalagui» - ou seja o Branco, o Senhor - é este o nome dado aos discursos do chefe de tribo Tuiavii de Tiavéa, nos mares do Sul. (...) Os leitores particularmente fanáticos da nossa civilização irão decerto achar a sua maneira de ver ingénua, e até mesmo pueril, ou parva; no entanto, mais do que uma frase de Tuiavii deixará pensativo o leitor mais modesto, pois a sabedoria de Tuiavii não emana de um saber erudito, mas é mais uma inocência de fonte divina."
"(...) Tuiavii sentiu desejo de conhecer a longínqua Europa (....) e juntando-se a um grupo visitou, um após o outro, todos os países europeus..."
"Através dos seus olhos descobrimos a nossa imagem, e isso com uma simplicidade que já perdemos."
Discursos recolhidos e tradizudos por Erich Scheurmann

pequenos excertos:

De como o Papalagui cobre as carnes com inúmeros panos e esteiras

O Papalagui esforça-se o mais possível por enconbrir as suas carnes. (...) Tudo quando se refere à carne é pecado. Assim fala o Papalagui. (...) Até mesmo aquelas partes com que se fazem os filhos, para maior alegria da vasta terra, são pecado. (...)
É por essa razão que o corpo do Papalagui está, da cabeça aos pés, coberto de tecidos, pêlos e panos tão cingidos e grossos que jamais olhar humano ou raio de sol poderá atravessá-los (...).
Como o corpo das mulheres e das raparigas anda sempre tapado, os homens e os adolescentes ardem em desejo de ver as suas carnes: o que é muito natural. Pensam nisso noite e dia e falam muito das formas do corpo das mulheres e das raparigas, e sempre como se o belo e natural fosse um grande pecado e só pudesse ser apreciado nos sítios mais escuros. (...) Poderá haver mais estúpido pensar? (...)

Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há

O Papalagui mora, como o mexilhão do mar, dentro duma conha dura. Vive entre pedras, como a escolopendra entre fendas da lava. Tem pedras a toda a volta, de lado e por cima. A sua cabana assemelha-se a um baú de pedra posto ao alto; um baú cheio de cubículos e de buracos. (...)
É quse incompreensível que um homem não morra em tal sítio, que o desejo de sair dali o não transforme em pássaro, que lhe não cresçam asas para poder tomar impulso e levantar voo (...).
O Papalagui é um indivíduo de um bom senso algo singular. Faz imensas coisas sem sentido que o põem doente, e apesar disso gaba-se e vangloria-se delas."

Do metal redondo e do papel forte

"A grande divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro. Todos os homens brancos pensam nisso, até mesmo a dormir. Quase todos eles sacrificam a saúde ao metal redondo.
Pensam nisso todos os dias, a toda a hora, a todo o instante. Todos, todos eles o fazem! (...)
Descobri uma única coisa pela qual se não pede dinheiro na Europa, coisa que cada um pode fazer as vezes que quiser: respirar o ar."
Sem dinheiro, tu és, na Europa, um homem sem cabeça e sem membros; não és nada.(...)"

2 comments:

tecas said...

Excelente texto minha querida.
Muito aprendi no que li:)
Ausente por uns tempos, cá estou de novo para te ler e...reler.
Bji amigo

Ingrid Barbarioli said...

Adorei, nossa pra pensar e repensar.
estou te seguindo.

beijos