Wednesday, January 21, 2009

o fim da vida, João Pereira Coutinho


fOTO: conceição maia in www.olhares.com/rolo

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.·
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em
progressão geométrica para o infinito.
É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos.Quanto mais queremos, mais desesperamos.
A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade.O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

João Pereira Coutinho, jornalista

3 comments:

Jose Augusto Soares said...

Excelente texto.
Hoje, a consorrência começa desde o berço, o "inimigo" está sempre ao lado, alvo a abater.
O colega de carteira é Belzebu, o colega de trabalho o Demo, e até o colega pensionista...um "oportunista" que recebe mais do que eu....

tecas said...

Por muito que não se goste( a verdade é inconveniente), esta é a verdade, escrita nua e crua.
Bji amigo

LB said...

Frequentemente confundem-se os sonhos materiais com a felicidade, esquecendo que esta é um estado de espírito reservado apenas a quem está disposto a saboreá-la. Mas hoje, de facto, as pessoas preferem engolir tudo, e quanto mais depressa melhor. E é pena!