Sunday, November 16, 2008

de José Saramago e da lucidez

Excerto de entrevista a José Saramago, Jornal de Letras

JL: A Viagem do Elefante é uma alegoria, amargamente irónica, da natureza humana?
JS: Sim. Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termos grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.

[e ainda acerca do livro e do ter sido escrito durante o período em que esteve doente]

JL: Foi uma convulsão?
JS: Creio que sim, que se passaram coisas estranhas nesse período em que estive doente. Durante um tempo, talvez umas horas, um dia ou dois, apresentou-se-me, por exemplo, uma imagem com um fundo negro e quatro pontos brancos formando um quadrilátero irregular. Eram brilhantes como se fossem corpos celestes no espaço.

JL: Que pontos eram esses?
JS: Tive a certeza que esses quatro pontos eram eu.

JL: Imaginou essa espécie de transposição ou redução quântica?
JS: Não foi uma imaginação. Vi e soube que eu era aqueles quatro pontos. E tenho que dizer que isso não me pertubou nada. Para ser franco, até tenho pena de os ter deixado de ver.

JL: E como teve a certeza de que era esses pontos?
JS: Não havia traços fisionómicos, apenas a consciência de que podia estar reduzido a esses quatro pontos, que a complexidade física e mental do ser humano se poderia reduzir a esses pontos que nem sequer eram regulares.

JL: O que descreve parece a experiência absoluta da relativização da existência diante da morte.
JS: É uma espécie de total despersonalização. Eu tinha deixado de ser quem julgava que era, ao mesmo tempo que me reconhecia nesses quatro pontos. Como é que isso se produziu, não me perguntem.
(...)