Monday, June 30, 2008

formas distintas de envelhecer

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Envelheço antes de tempo

Lamento as coisas que não disse
e os projectos que não realizei
numa segurança afinal insegura
Os meus dedos já não têm cor
os meus olhos deixaram de ver
perdi a noção das coisas evidentes
Como eu lamento não ter sido capaz
de ser eu própria
presa a convenções e opiniões
O meu corpo já não acompanha
as viagens que realizo aqui sentada
A realidade é esta: envelheci!
e só agora o percebo
quando as minhas pernas não me levam onde quero
quando me esqueço de quem sou

Marta Dutra in Vago - o Olhar

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Hoppipolla music video by Sigur Ros
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Wednesday, June 25, 2008

Aguarela

fOTO: F. Monteiro in http://olhares.aeiou.pt/utilizadores/detalhes.php?id=22985


Campos de Aveiro.
Manchas verdes de arroz,
E a vela dum barco moliceiro
Que um pirata ali pôs.

A servir de moldura,
O velho mar cansado;
E um céu alto a descer e a ter fundura
Na quilha reluzente de um arado.

Miguel Torga

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Thursday, June 05, 2008

Revisitando Torga - II

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São Leonardo de Galafura

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Coimbra, 1 de Janeiro, de 1943

Outro ano. Toda a gente excitada, e, de conhecido para conhecido, esta senha:

- Boas entradas!

- Igualmente! - responde o contemplado. E lá segue cada qual o seu caminho, com o supersticioso pé à frente, não vá o demo tecê-las.
A estafada e monocórdica ária de sempre, que apenas moi os ouvidos de quem é por condenação um rói-migalhas, e passa o tempo a reparar nas inocências do homem, e a registá-las.

Ano Novo! Os torcegões que a realidade sofre nas nossas mãos, a ver se conseguimos disfarçar-lhe a crueza! A imaginação colectiva aos sobressaltos, na grata ilusão (na triste ilusão) de que a coisa vai começar agora, - agora que o ano é novo, o século é novo, a idade é nova. No fundo, todo o passado é um erro para cada um de nós. E como ninguém é capaz de aceitar corajosamente os erros e de fazer deles um roteiro de sinceridade, contorna-se o problema desta ingénua maneira: recomeçar. Sem nos querermos convencer de que nada pode deixar de ser como é, porque continuamos os mesmos e, só errado, o caminho é bonito e nos apetece. Recomeçar uma, duas, cinquenta vezes, e chegar à meta com este lamento hipócrita na boca: -Ah, se eu voltasse aos vinte anos e soubesse o que hoje sei!

Que me lembre, apenas Raúl Brandão teve a grandeza e a lealdade de escrever que repetiria o calvário da vida sem lhe alterar o itinerário. Isto sim, isto é de quem entendeu a fundo que a existência não deve ter soluções de continuidade, nem ser prevista. (...)

Miguel Torga, Diário II