Saturday, March 29, 2008

Arribo à Ilha...



Arribo à Ilha sob um céu acolchoado de nuvens densas. Só nos píncaros se acha embuçada de negrume a serra de Água de Pau. No sobejo da encosta, virada à cidade e ao aeroporto, escorre tinta azulácea, a cair no roxo. Mesmo mutilada, sinto-a revestida da majestade olímpica de deusa que ali persiste para escorar e dar sentido à paisagem de que participa. O casario da Lagoa detém-se num sorriso desabrochado, alumiando o fundo do horizonte. As chaminés das fábricas espetam-se no algodão churro da atmosfera abatida. Ando de Ilha às costas. Escorre-se-me em suor por todo o corpo. Sempre que se manifesta em pesadume exsuda e transpira-nos...


Cristóvão de Aguiar, Nova Relação de Bordo


Thursday, March 20, 2008

da Poesia hoje


Aqui onde me encontro o sino toca de quarto em quarto de hora. E hoje não o sei dizer de outra forma: este som que me invade e ecoa cá dentro como um gongo que me ensurdece.

Lembro: “A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.” (Eugénio de Andrade, A poesia não vai)

Penso: a poesia não tem definição, sente-se em todas as coisas. E hoje não a sei dizer de outra forma.

Saturday, March 01, 2008

ontem em Fânzeres - obra premiada: Vago - o Olhar

Ontem vivi um momento muito especial em Fânzeres num acolhimento enternecedor.

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Sou eu aqui sentada no cimo da rocha, cuja silhueta os navios descortinam ao longe quando cortam aquela linha do outro lado do horizonte.
Sou eu aqui, o mundo a meus pés, ao antes, o mar. Fico nele e ele em mim. Sou apenas mais uma sombra que o céu tolera, sem asas de pássaro, sem pio, sem grito, sem esvoaçar. Sou apenas eu aqui sentada, eu e o mar, eu e o mundo, e talvez um navio que me veja ao longe.


Marta Dutra, Vago- o Olhar

17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres