Thursday, January 31, 2008

biblioteca

gosto desta calma de biblioteca. deste sussurrar para não acordar os livros. mundos tão díspares que se interpenetram nas inúmeras prateleiras: o rio triste com o baile, o grão-mestre dos templários com confissões de uma farmacêutica, o sorriso aos pés da escada com o curral das bestas. loucura de quem escreve. loucura de quem lê. sussurro para não acordar os livros.



Thursday, January 24, 2008

dias desiguais

fOTO: Leonardo breviglieri gepp in http://www.olhares.com/leogepp

o olhar dos cães abandonados
o olhar dos cães às vezes
assemelha-se a um mineral escuro
a uma pedra funda e despedaçada
toca-nos como um olhar humano
como se desesperado daquilo
que não tem salvação
prende a alma
prende-a por muito tempo
às vezes penso que é a morte
que ali nos olha
apenas ela
à espera de alguém para mostrar-se
outras vezes esse mesmo olhar
é um fogo assustador
lavra do fundo dessas retinas pobres
acordando em nós
a angústia de sempre
aquela tão simples verdade que diz
- podíamos ser o contrário, ele e eu -
.
«Any Other Name», Thomas Newman
às vezes tropeçamos
na mais completa tristeza
- é sempre tão bela a tristeza -
algo toca dentro de nós
como um sopro subtil do tempo
antes um pouco
de marcar-nos para sempre
João Ricardo Lopes, dias desiguais

Cabeçudos e gigantones

Tua certeza eleva-se e recorta-se
no céu como um guindaste.
Hirta, metálica, adstringente e fria,
como a encontraste?

Se eu devesse guardar-te respeito por teres um sorriso amável,
por serem castanhos os teus olhos ou por pisares o chão de certa maneira,
então respeitaria também a tua certeza inabalável
e dela te pediria um farrapo para o arvorar em minha bandeira.

Faz-me pena a tua certeza como se tivesses sofrido um acidente,
como se te visse estendido num leito, impossibilitado de te mexeres.
Em tua certeza, cadeira de rodas, fazes-te conduzir piedosamente,
e os caminhos passam por ti sem tu passares por eles, e sem os veres.

Embrulhado na tua certeza, de rosto voltado para a parede,
adormeces sorrindo enquanto a vida, aos borbotões exulta.
Foguete de lágrimas, meandros sem rectas, catapulta,
veio de água que afoga e nunca mata a sede.

António Gedeão

Monday, January 07, 2008

Carta a Fátima

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Saturday, January 05, 2008

da Caruma


ainda sinto e ouço a Caruma: "Minhas senhoras e meus senhores os carrumerros!" :-) e nós imbuídos nessa magia que aquece a alma... novos, velhos e crianças num espaço comum, num movimento compreensível a poucos. leitura da vida, evolução, descoberta interior, numa linguagem falada que parece mística ou talvez uma língua nova se tenha inventado pensa quem não a entende. ah! dêm espaço, queremos mostrar a possibilidade no meio de tantas vivências multifacetadas. ah! se não a entendes é porque talvez ainda estejas na dança dos casacos e egos. olha para além de ti, despe-o e voa!!!... só assim poderás perceber que as árvores também podem descer do céu... e deixar a poesia fluir, viver...
obrigado Madalena Vitorino