Thursday, March 20, 2008

da Poesia hoje


Aqui onde me encontro o sino toca de quarto em quarto de hora. E hoje não o sei dizer de outra forma: este som que me invade e ecoa cá dentro como um gongo que me ensurdece.

Lembro: “A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.” (Eugénio de Andrade, A poesia não vai)

Penso: a poesia não tem definição, sente-se em todas as coisas. E hoje não a sei dizer de outra forma.

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