Saturday, March 29, 2008

Arribo à Ilha...



Arribo à Ilha sob um céu acolchoado de nuvens densas. Só nos píncaros se acha embuçada de negrume a serra de Água de Pau. No sobejo da encosta, virada à cidade e ao aeroporto, escorre tinta azulácea, a cair no roxo. Mesmo mutilada, sinto-a revestida da majestade olímpica de deusa que ali persiste para escorar e dar sentido à paisagem de que participa. O casario da Lagoa detém-se num sorriso desabrochado, alumiando o fundo do horizonte. As chaminés das fábricas espetam-se no algodão churro da atmosfera abatida. Ando de Ilha às costas. Escorre-se-me em suor por todo o corpo. Sempre que se manifesta em pesadume exsuda e transpira-nos...


Cristóvão de Aguiar, Nova Relação de Bordo


2 comments:

Anonymous said...

"Ando de Ilha às costas..." Gostei desta expressão. Eu creio que ando com a Serra às costas...É uma questão de raízes. Ficam tão impressas em nós, na nossa carne que continua a ser aí que nos encontramos no nosso melhor.Na serra, sinto-me senhora do mundo!
Gosto dos teus textos, Marta. Em ti, até a prosa é poesia. Obrigada.
Ilda

Anonymous said...

Grande, muito grande!