Tuesday, November 20, 2007

esboço


fOTO: Ricardo Costa in http://www.olhares.com/touchdelight

desenho-te um esboço
recortado
vislumbres
de uma criança
que te estende uma flor
e te segreda
a enormidade do mundo
a cada dia
um gesto
uma imagem
e um sol que se desprende
no olhar de uma criança
com um sorriso
e uma flor estendida

para o João Ricardo Lopes

reticências - João Ricardo Lopes

a cortina foi empurrada
um pouco para a esquerda
apenas um pouco, mal se nota.
ela, a do rosto, é bonita
mas não a direi assim:
di-la-ei antes pensativa, circunspecta
poisando os olhos decerto aí
ali, quem sabe no alvoroço de que esquina.
tem (terá) trinta anos ou menos.
menos, sem dúvida:
vinte e cinco talvez.
debaixo de algum glacial da expressão
vêem-se a espaços picos de luz
e são eles que esforçam por abrir
por ser a difícil clareira
contra razões tão cerradas.
a cortina voltou a tapar tudo
não se vê o rosto dela
não se sabe o quê, como ou porquê
somente isto, somente a noção
de que não existem pontos finais —
reticências quando muito


por João Ricardo Lopes

Friday, November 09, 2007

palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão"

fOTO: Hélder Freitas in www.olhares.pt
palavras para a apresentação do livro "dez anos de solidão" em santa maria, de Daniel Gonçalves
esta ilha é uma ilha de solidão mas não é a
ilha da solidão
esta ilha é uma ilha de solidão quando olha o
mar em sua volta
quando se fecha para dormir sobre a eternidade
quando se leva para fora no silêncio adocicado
de quem parte
esta ilha é uma ilha de solidão porque
queremos que assim seja
porque se ela pudesse abraçava-nos
pegava em nós e dava-nos o seu pico mais alto
para morarmos
e vermos que o mundo em volta é que é
pequeno
esta ilha é uma ilha de solidão e gosto dela
assim
quando me dá todo este tempo para reviver
quando me aproxima as coisas mais pequenas
desta boca que tem tanta sede
esta ilha é uma ilha de solidão mas não nos
deixa sozinhos
porque essa solidão é só mais uma maneira de
colorir o espaço em branco
o espaço em azul o espaço em verde
o espaço em cor de sonho a cor em espaço
esta ilha é uma ilha tão grande que cabe nela
toda a solidão do mundo
porque a solidão do mundo é do tamanho de
uma palavra
uma palavra que se tiver que rimar rima com coração
e rima com silêncio e rima com o outono e com
o inverno
e com a primavera e com o verão
e rima sobretudo com abraço porque o abraço
é que dá descanso à solidão
esta ilha é a ilha de todas as ilhas onde se
espera pela manhã seguinte
a ilha onde temos esta solidão virada do avesso
que é pensarmos que ninguém nos ouve
e ninguém quer saber em que parte do oceano estamos
esta ilha é a ilha de todas as ilhas que pensam
que são a ilha da solidão
e há tantas ilhas assim e tão mais pequenas
ilhas que às vezes trazemos fechadas nas
nossas mãos
esta ilha é tudo isto e tanto mais
porque nenhuma palavra sabe o que dizer
quando tem para dizer o que esta ilha tem
para dar
e só me apetece dizer que esta ilha é a ilha do
amor
e por ser assim é a ilha da poesia
e das aguarelas que mostram o lado de fora
por dentro do lado íntimo das coisas
e esta ilha somos nós
agora
com a solidão lá fora
à espreita do que estamos aqui a fazer
Daniel Gonçalves

Wednesday, November 07, 2007

Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres

Foto: Emanuel Carreiro in www.olhares.pt
17ª edição do Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres para a obra:

"Vago- O Olhar" - Marta Dutra (a ser editada em breve)

a todos os incentivadores, o meu obrigado!

Tuesday, November 06, 2007

CARUMA - Um projecto de arte comunitária



Caruma são folhas secas em forma de flecha que descem dos pinheiros, vestem o chão e picam. Caruma é um espectáculo com uma dimensão privada e outra pública, em que ambos os espaços se misturam numa paisagem que mexe.
É sobre o que está na margem e no centro.

Pessoas da rua, bailarinos e músicos põem o público em contacto com uma comunidade que é sua, confundindo-o e iluminando-o nessa ideia de unir o centro da sua cidade às margens da arte. O público, uma parcela dessa comunidade, revê-se e descobre-se, adiciona algo de seu ao espectáculo sem o saber previamente. Testemunha a transformação dos seus pares que nessa noite são outros.

Pequenos ninhos de público envolvem acções feitas em formato de concluios, conversas de saleta, solos dançados e contados, onde a intimidade da relação espectáculo/público se acende.
(...)
Caruma é um espaço para anjos nascidos na terra e humanos caídos do céu. Bailarinos, música, acções em catadupa saem de um tapete de caruma. Emergindo do centro da vida, recontam-se no fluxo de um tempo musical.

no CineTeatro de Estarreja

Friday, November 02, 2007

A FLOR

Rodrigo


Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que deus faz uma flor!



Almada Negreiros