Tuesday, October 16, 2007

Os paraísos artificiais - Jorge de Sena

fOTO: Luís Caçador in http://www.olhares.com/lfcacador
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Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é iniefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena (1947)

Friday, October 12, 2007

Para Sophie - João Ricardo Lopes

fOTO: Guido Caldeira in http://www.olhares.com/Guido

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Há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos. E os dias que nele se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E são por isso dias de uma distância sem medida nem tempo, dias em que nos enclausuramos para encontrar as palavras certas com que havemos de dizer há sempre um exílio de que somos parte e não sabemos…


Sophie, estes são os contornos imprecisos das palavras e elas nada valem sem que nelas permaneças. Os dias que agora se arrastam trazem um rumor de mar para o fundo da alma. E a distância é como essa agulha de dor que nos dobra no pior dos silêncios e nos diz haver sempre um exílio de que somos parte e não sabemos e dias que se arrastam e hão-de arrastar em contornos imprecisos e palavras…


João Ricardo Lopes

por vezes as palavras não chegam

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Ballad of Sacco & Vanzetti : sublime!)

Thursday, October 04, 2007

eu nunca guardei rebanhos...

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol,
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
(...)

Alberto Caeiro