Sunday, August 26, 2007

caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem

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fOTO: Rodrigo Ferreira in http://www.olhares.com/Neojag
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
a terra estende-se infinita nos teus passos
ao passares o horizonte serás o último
e partindo de mim avanças


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
onde o lugar das palavras que esquecemos?
se o nosso mapa foi o sol e as manhãs
onde foi que nos perdemos?


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
como um martírio triste como um homem cansado
como a morte ao fim da tarde como um rio
como um silêncio profundo a levar-te


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
começam hoje os dias os meses os anos depois de ti
começa hoje a ser recordação apenas o quanto vivi
e partindo de mim avanças


caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
não vás porque a vida é aqui e o esquecimento é longe
mas tu não me ouves já avanças
e a noite segura-te por onde vais

caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
ainda agora partiste e és já uma memória desfocada
não vás porque a vida é aqui e o esquecimento é longe
e as minhas palavras não valem nada
caminha pelo teu corpo um silêncio como uma aragem
avanças devagar percorrendo um grande caminho
a tarde morre de repente num silêncio como uma aragem
e fico morto esquecido mutilado sozinho
José Luís Peixoto in a criança em ruínas

Monday, August 20, 2007

SÃO JORGE, COSTA NORTE

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fOTO: http://supertatas.blogspot.com/2006/08/aores-s_25.html


Desço com o vento a Ribeira dos Vimes, levo pássaros nos ombros e escuto a voz da água da Caldeira. Esmeralda, o ar da manhã...



A terra treme: é o vulcão oculto da ilha, a boca de rir tremendo, o registo nos ramos altos das árvores livres... Tremer sem medo é uma linguagem da ilha, a febre profunda de chegar às raízes das pessoas...


É Verão quando não chove e o vento sopra do sul. E se chover é o mesmo...


O basalto é azul até onde o mar chega... A costa norte rebenta de silêncio e o João, a golpes de enxada, põe ao sol o corpo submerso dos inhames.


As crianças da Fajã sorriem para o sol-total desta manhã norte de São Jorge: este é o poema!


Fecho os olhos e com as mãos procuro em carícia a erva no solo e levo-a à boca como um animal civilizado que lhe agradece a beleza e o aroma magnífico deste céu terreno.


João acena-me com os braços erguidos, chama-me com o seus gestos de pescador e camponês: gestos que trazem raízes e ondas, a bondade universal da ilha e do mundo!


Não é o que sinto e canto que faz o Poema! O poema é a Ilha e a sua gente; o resto do que digo não passa duma manhã de esmeralda com um homem dizendo “bom dia” nos gestos de trabalhador!




Carlos Faria, S. Jorge

Saturday, August 18, 2007

sou os mil ventos que sopram

Não pares junto à minha campa a chorar,
Porque não estou lá.
Não estou adormecido.
Sou os mil ventos que sopram,
Sou o brilho do diamante na neve,
Sou a luz do Sol na semente madura,
Sou a chuva branda do Outono.
Na quietude macia da luz matutina
Sou a ave que voa veloz.
Não pares junto à minha campa a chorar,
Eu não estou lá,
Eu não morri.

(autor desconhecido)