Tuesday, July 31, 2007

Mar com poeta dentro

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fOTO: Hélder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMar


O corpo da ilha não tem nome
próprio de quem se rodeia de orvalhos antigos.
Quando navega não tem
rumo nem destino.
No cais a penumbra branca desce
sobre a viagem adormecida.

Desconhece-se que poeta foi ver o mar por dentro.
Mas sabe-se quem grafitou com sonhos
os muros da solidão.


Álamo Oliveira, In Novos Rumores do Mar


Sunday, July 29, 2007

tempo

fOTO in http://www.olhares.com/DETAIL


...porque disponho de tempo, porque o quero modificar, acender-lhe luzes aqui e ali, mas para isso já existem as estrelas, mil sóis e luas. sim, porque disponho de todo o tempo que existe, talvez acender uma luzinha cá dentro e sair pela noite...

Friday, July 27, 2007

sentados no silêncio


Com os mortos só poderemos ter delicadeza, mas o caminho por onde seguem é-nos hostil desde o primeiro passo; não nos resta outra coisa senão esperá-los aqui, sentados no silêncio, o coração em desordem. Talvez um verão ardente os traga até à nossa porta, dois golfinhos de prata no anel e o cheiro das ilhas no cabelo, para que o inverno seja suportável.
Eugénio de Andrade

Thursday, July 26, 2007

Da Emigração

fOTO: Paulo Madeira in http://www.olhares.com/moss



Os homens partiram do seu seio-Ilha
em buscar de um lugar-prosperidade
Na bagagem
levaram o negro do basalto
e o cheiro da criptoméria
No olhar
a saudade do mato
do pasto manchado a preto e branco
da morraça que não molha molhando
e que os transforma numa substância incorpórea:




na alma do milhafre que abraça as montanhas
(saudade tão portuguesa...)

Thursday, July 12, 2007

Ocupações de Verão - Eugénio

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fOTO: mIGUEL p. dIAS in http://www.olhares.com/Chavesmig



Ocupações de Verão

Finalmente disponho de tempo, disponho mesmo do tempo todo, posso fazer o que quiser dos meus dias, por exemplo, estender-me ao sol e aguardar a chegada das formigas. Não podem tardar, e quando chegarem já aqui me encontram, a mim, que sou vacilação, ou o que restar de mim, boa-noite, umas sandálias, uns óculos, algumas sílabas quase de vidro. Tenho de pensar no que direi a criaturas tão susceptíveis; seria de mau gosto distraí-las das suas ocupações, falar-lhes-ei do trigo vermelho da Hungria, às vezes quase violeta, dos cardos de Epidauro rastejando na terra, à procura do coração da água. Mas quando me voltei para seguir o voo do pássaro, apercebi-me que o tempo mudara, as formigas já não viriam. Com efeito o sol escurecera, a chuva não tardaria, torrencial. Quem me ajudará agora a rilhar a eternidade?


Se o vento vier

De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pensava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.


Eugénio de Andrade

Sunday, July 08, 2007

Sinfonia de Cor - Armando Cortes-Rodrigues

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Foto: Jorge Rodrigues in http://www.olhares.com/wonderbirds


Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.

Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.

Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.

E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.

Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...

Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!

Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.

Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.

Partir!

Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.

Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...

– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.

Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...

E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.

Adormecer a vê-las...

Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.

Armando Cortes-Rodrigues
(enviado por Olegário Paz)

Friday, July 06, 2007

aborrecimento social

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Foto: Vanda Lacão in http://www.olhares.com/samyti


corrompi-me novamente. o ter, o querer mais, sempre e acima de tudo. o medo de ter fome, de viver na rua, de sei lá que mais. medo. e voltei a ser como queriam que fosse. a correr, autómato, com um objectivo fixo, mas na verdade sem rumo. não é este o meu caminho, não é minha esta azáfama enervante sem tempo para mais, isto não é meu, é vosso. eu sigo para um lugar longe disto. as convenções, as obrigações toldam o pensamento, inibem o espontâneo que há em mim. ah a imagem a manter, tão importante. é verdade. tão importante essa imagem que quero que tenham de mim. ahahahah deixem-me rir da ideia. fantasias de todos nós. como se isso fosse ter alguma importância no todo.
quando vivia na ilha, rodeada de olhares, opiniões alheias, pensava muitas vezes que a minha vida nesse micro-cosmos não interessava a mais ninguém fora dele. nesse isolamento toda a vivência assume outra proporção, mas fora dali as estórias de telenovela não interessam para nada. na verdade, todos vivemos num micro-cosmos, e as nossas estórias não interessam para nada fora dele, porque ninguém nos conhece. valerá a pena toda a preocupação com a imagem que têm de mim os outros, se as cores combinam, se o cabelo é vermelho ou amarelo!?! acreditem, se quiserem, isso tem pouca importância, porque sou muito mais do que isso, e não me assumo como um de “vós”.

Tuesday, July 03, 2007

Dissolução no corpo - Octávio Mora

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Foto: Maria Isabel Batista in http://www.olhares.com/Farisa
Dissolve-se-me o rosto.
Os lábios, ao silêncio, de regresso,
ao hálito a linguagem:
não sinto o gosto
que tinham as palavras. E, confesso:
sou só imagem.
Perco a lembrança, oca,
de tudo o que recordo. Posso estar
com a terra a meus pés
que será pouca
para tudo que ando ao arrastar
suas marés.
Sempre que a terra consegue
adiante de todos os meus passos
estar: inamovível.
Passiva: entregue.
Sob os meus pés e longe dos meus braços:
em outro nível.
São seus rios meus rastos.
Deixo sobre seu rosto minha face
já sem identidade.
Busco outros pastos.
Preso a seus gestos ficará, quem nasce,
em liberdade.
Dissolve-se-me a voz.
Ao silêncio geral estou de volta:
com água pela testa
e os cegos nós
de quem, árvore, fica, se as mãos solta,
preso à floresta.
Octávio Mora