Sunday, June 24, 2007

Epitáfio - Sérgio Brito

.
Foto: Karina Bertoncini in http://www.olhares.com/KarinaBertoncini


Devia ter amado mais,
ter chorado mais,
ter visto o Sol nascer...
Devia ter arriscado mais,
até errado mais,
ter feito o que eu queria fazer...
Queria ter aceite
as pessoas tal como elas são.
Cada um sabe a alegria
e dor que traz no coração.
Devia ter complicado menos,
trabalhado menos,
ter visto o pôr-do-sol.
Devia ter-me importado menos
com problemas pequenos,
Ter morrido de amor...
Queria ter aceite
a vida tal como ela é
a cada um cabe a alegria
e a tristeza que vier...

O Acaso vai-me proteger
enquanto eu andar distraído.




- cantado por Tim hoje no Teatro Aveirense -

Tuesday, June 19, 2007

Juro que não vou esquecer - António Lobo Antunes

Juro que não vou esquecer...

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensasolidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo daslentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeçasequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeitode pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisasem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis enão grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
.
António Lobo Antunes, Visão

Monday, June 18, 2007

Navegador do mar das ilhas - Cristóvão Aguiar

.
Foto: José Luis Mendes in http://www.olhares.com/Jseven
Eu, Cristóvão Colombo,
Por graça do Senhor
Navegador,
Demandei terra estranha
Ao serviço de Espanha...

Meus dedos
Navegam no mar...
Cinco barcos, cinco destinos,
Em busca da mulher
Das ilhas da memória...
Rompi mares, rompi velas
Em naus de madeira!

Sou de certa maneira
Um Colombo, navegador...
Tenho o mar das ilhas
Na poça das minhas mãos...
Meus dedos são barcos
Rompendo destinos...
Descobri terras,
Plantei padrões de pedra
No cimo das descobertas,
E tornei-me o Senhor
Dos ventos marítimos
E das naus de sal...

Cristóvão Colombo,
Por graça do senhor
Navegador,
Demandou terra estranha
Ao serviço de Espanha...

Eu, que também sou navegador
(Ou talvez ainda muito mais...)
Eu, que sou o Senhor
Do mar das ilhas da memória...
E dos ventos
E das naus
(Eu, que sou dos Cortes Reais...)
Descobri por engano
Uma terra estranha,
- Tal qual o Colombo
Ao serviço de Espanha

Crisóvão Aguiar in Mãos Vazias, 1965

Tuesday, June 12, 2007

Revista Minguante




Já está disponível o novo número da revista Minguante de micronarrativas em http://minguante.com/


Boas leituras.

Monday, June 11, 2007

Alexandre Borges - Heartbreak Hotel

.
Foto: Paulo Medeiros in http://www.olhares.com/paulomed
não tenho a certeza de pertencer a este lugar ou
a qualquer outro, como tu, mas nós
nós é diferente
pertencemos aqui como duas lajes de um chão mosaico
parte do quadro pintado para os passos
de quem apenas levite

e de repente toda a dança é possível no rodopio do
tempo, nas
têmporas do rosto grande das figuras em estátua
perfumadas
nas catedrais.
Visita-me lá, visita-me aqui, reconhece os lugares
que cruzaste
à beira dos caminhos, a caminho de outros lugares
quaisquer.
E tira fotos para os escaparates, dos pedestais, dos
estendais, das escapatórias das linhas de fuga das
obras de arquitectura dos arrozais

no mar mora a chuva que não chegou a chover
como na terra o fogo que não ardeu,
há um trigueiro em chão sagrado da vindima
sem templo sem pai nem mãe nem voz
e ainda assim é cantor e trigueiro e filho e sacerdote
a meio da chuva que não choveu, do incêndio
que nada consumiu

há viagens por dentro e por fora, de lado a lado dos
orientes da tua curva
o perfil talhado dos deuses desde a tua boca
ao fim do mundo conhecido.
Quero-te com prazo de validade
a duração de dois corações descartáveis
a força e o medo do primeiro astronauta
o espanto passageiro de uma criança
a contenção de um diplomata
falando ao País.

E sei-te de cor para a próxima vez em que um de nós
tenha de ir embora
antes de vir a luz
Alexandre Borges in Heartbreak Hotel
(enviado por Olegário Paz)

Friday, June 08, 2007

Ronald de Carvalho e Ledo Ivo

Foto: Maria Isabel Batista in http://www.olhares.com/Farisa


ÉPURA

Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!

Curvas de trilhos
triângulos de asas,
bolas de cor…

Sombras redondas agachadas entre as árvores,
cilindros de troncos embebidos na luz…
Geometrias, imaginações destes caminhos de minha terra!
Cheira a mar!
Melancolicamente, esta alegria geométrica,
pingando brilhos polidos,
o leque das bananeiras abana o ar da manhã…

Ronald de Carvalho


OFÍCIO DE VIVER

Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objectos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.


Ledo Ivo

Monday, June 04, 2007

In Loco - José Martins Garcia

.
Foto: Pico (autor ?)
surpreende-me a proximidade
das pedras dos bichos e das fábulas
ao passo que os humanos bolorecem jovens
idênticos a intemporais naufrágios

ilha de quem? de quê? de que basalto ou névoa?
borbulha só da minha consciência?
e o Canadá e a Califórnia e o Massachusetts
que demónios açóricos poderão preservar?

oh lendas de baleias e veleiros e terras novas
oh parentes hoje sem identidade
spikando entre arrotos de vera ou ficta abundância
seus novos mares ilusórios!

eu vos lamento e rio e em português me choro
mais uma vez negando a condição da bruma
hoje efectiva material e des-sonhada
mortalha entre o Pico e o Faial

surpreende-me a existência de coisas como ilhas
depois de haverem sido textos meus
surpreende-me a nuvem esmagante
depois de me ter sido vocalismo errante

surpreendo-me eu próprio ao mastigar palavras
em português no meio do Atlântico sem Atlântida
e surpreende-me que os mortos não ressurjam
não compareçam ectoplasmas de sargaço
no fumo do meu charuto talvez americano

versos de quem? de que ilusão linguística?
e que laço vos laça e que fome vos lança
do entardecer ilhéu à banal brisa?

oh Betefete oh Fall River oh Braga Bridge
oh fealdade dos topónimos quando burgos
sonantes
oh fealdade efectiva das pedras picarotas
que avistadas de Newport são legiões heróicas
e grandiosos corsários
e arpões fantasmáticos
e aqui fisicamente são o canal da tristeza
entre o meu ser pardacento
e o murmúrio do longe
silencioso sonho que a geografia esmigalha
José Martins Garcia
(enviado por Olegário Paz)