Thursday, May 31, 2007

Sul - Eugénio de Andrade

.
Foto: Ricado da Costa in http://www.olhares.com/touchdelight
(hoje acordei a s-o-l-e-t-r-a-r este poema:)
.
Era Verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.
Eugénio de Andrade

Junho - José Henrique Santos Barros

.
Foto: Carlos Bettencourt in http://clubezoom.blogspot.com/


Em Junho cantávamos a ilha.


O Verão espreitava pelos calções que molhávamos na praia suja e pelas riscas vermelhas das blusas das raparigas virgens.


Sobrevivência de terramotos, gatos mortos para o enterro das marés puras. Embalávamos o barco de borracha (dos americanos, claro) apoitado no arquipélago, que não imaginávamos como ilhas incomunicáveis. Tu dizias alto: «Somos piratas» e a nossa missão civilizadora desenvolvia-se entre os polvos que temíamos e os caranguejos que picavam mas nem por isso assustavam.


Difícil era entrar por dentro do tufo coberto de água, que nos cobria até à cintura. Chegados a meio, temente do equilíbrio conquistado, mijar clandestinamente era o maior prazer da meia viagem (...). Prosseguir, subir a uma pequena escada, depois de beber o sal por todos os poros e então pescar à linha, pelos joelhos segurando a invasão das marés e, mãos fechadas, segurar firme o cabo que nos ligava ao fundo onde se projectava o querer abismal da boca de um peixe de tamanho impossível.



José Henrique Santos Barros in Testes e Versos para Andar na Rua, 1973.

Tuesday, May 29, 2007

Fábula da ilha - Álamo Oliveira

.
Mapa dos Açores desenhado por Luís Teixeira, cosmógrafo real (1584).



um bando de gaivotas em liturgia de abandono
orienta marinheiros de ignorância e cachimbo


(o barco da cruz gramada; os pés da bússula ruindo;

a mosca henriquina emigrada em sono).


na baía incendiada o grito do sossego partilha

âncoras de fundo e fumo com peixes e hortelã.


não era indício de oiro nem esfinge de sereia nem

vagabundo do sonho num deserto de cetim. era ilha!



(nas suas entranhas com vómitos de lava

setia-se crescer a lascívia do povoamento).

........................................................................................

ainda hoje se ouve a angústia do vento
percorrer as coordenadas do povo no mapa.


Álamo Oliveira in Fábulas, 1974

Friday, May 25, 2007

Os nascimentos - Pablo Neruda

.
A Natividade, Paula Rego


Nunca nos recordaremos da nossa morte.

Tão pacientes fomos
para sermos
que anotámos
os números, os dias,
os anos e os meses,
os cabelos, as bocas que beijámos,
e aquele minuto antes de morrer
deixá-lo-emos sem anotação:
damo-lo a outros de lembrança
ou simplesmente à água,
à água, ao ar, ao tempo.
E de nascer tão-pouco
guardámos a memória,
ainda que importante e jovial
tenha sido a nossa vida:
e agora não te lembras sequer
do mais pequeno pormenor,
não guardaste sequer um ramos
da primeira luz.

Sabe-se apenas que nascemos.

Sabe-se que na sala
ou no bosque
ou no palheiro do bairro piscatório
ou nos canaviais rumorejantes
há um estranho e profundo silêncio,
um minuto solene de madeira
e uma mulher que vai parir.

Sabe-se apenas que nascemos.

Mas da profunda agitação
de não ser para existir, para ter mãos,
para ver, para ter olhos,
para comer e chorar e despojar-se
e amar, amar, e sofrer, sofrer,
daquela transição ou calafrio
do conteúdo eléctrico que um corpo
tomar para si como se fora uma taça viva,
e daquela mulher desabitada,
a mãe que ali fica com o seu sangue
e a sua dilacerada plenitude,
com o seu fim e princípio, e a desordem
que altera o pulso, o chão, os cobertores,
até que tudo se recolhe e mais

um nó é dado com o fio da vida,
nada, não ficou nada na tua memória
do mar bravio que ergueu uma onda
e derrubou da árvore uma maçã sombria.

Não tens mais recordações que a tua vida.


Pablo Neruda, Os nascimentos

Wednesday, May 23, 2007

Ilha - Natércia Fraga

.
António Dacosta


Terá sido o vento o mar as gaivotas
Ou a distância
O horizonte perdido o bramir dos temporais
Ou a distância
A solidão da aldeia o espanto da cidade
Enredado em penas de pavão bolos de chocolate e surpresa
A idade tão jovem e a velhice do mundo
Ou a distância
Que naquele cais à luz da noite
Degraus assustados e tentadores
Para a lancha
Reduzida a ser criança
Me levaram os olhos escuridão fora
Durante tempo infinito
E só depois mos devolveram
Entristecidos sonhadores fundos como o mar?

Ou terá sido a ampla misteriosa distância
Que se colava ao horizonte? ...
Natércia Fraga, Ilha

Porque por vezes naufragamos - VI



A rota seria prolongada. São demorados todos os caminhos que nos conduzem à consumação dos desejos mais íntimos. (…)

A treva impenetrável cingia tão estreitamente o barco que tínhamos a sensação de que se estendêssemos a mão para fora da borda, tocaríamos uma substância de outro mundo. (…)

Quando a ocasião própria chegasse, as trevas dominariam em silêncio a pouca luz das estrelas que caía ainda sobre o barco e o fim de tudo viria sem um suspiro sequer, sem um movimento, sem murmúrio algum, e todos os nossos corações deixariam de pulsar, como relógios a que a corda se acabasse. (…)







Joseph Conrad, A Linha de Sombra, 1917

Tuesday, May 22, 2007

Porque por vezes naufragamos - V

.


Fonte: Greenpeace



«Que diabo se passa no nosso mar?», perguntávamos a nós mesmos. E numa manhã de Verão, em 1984, tivemos a resposta. (…)
«Vimos um barco-fábrica de mais de cem metros de comprido, várias cobertas, parado mas com as máquinas a toda a força. Aproximámo-nos até que reconhecemos a bandeira japonesa pendente à popa. (…)
«Com uma tubagem de uns dois metros de diâmetro sugavam o mar. Puxavam-no todo, provocando uma corrente que sentimos debaixo da quilha e, depois de passado o aspirador, o mar ficou transformado num escuro caldo de águas mortas. (...) Com as respiração quase paralisada de horror vimos como várias crias de golfinhos eram sugadas e desapareciam. (…)

Senti que estava a chegar ao fim de uma longa viagem. (…) Pensei em desembarcar o Pedro Pequeno e depois atirar-me com o Finisterre a toda a força contra a casa das máquinas do Nishin Maru. Trago quinhentos litros de combustível a bordo (…) O Pedro leu-me os pensamentos(…). Vio-o remar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima (…)

«A dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto do escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro homem ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.

«Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishin Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-nos para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo. Alguns tripulantes insensatos lançaram barcos salva-vidas que mal tocavam a água eram destruídos com pancadas das caudas. A outros vi-os eu cair à água durante as investidas. Logo se declarou um incêndio a bordo, o helicóptero ardeu na coberta da popa, e Tanifuji deu ordem para se afastarem a toda a força das máquinas, sem se preocuparem com a sorte dos tripulantes que ainda se agitavam dentro de água e que foram implacavelmente despedaçados pelas baleias e pelos golfinhos.

«Custa-lhe a acreditar em tudo isto? Claro que é incrível, mas amanhã verá com os seus próprios olhos o lugar e os restos da batalha.



Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo, 1989

Monday, May 21, 2007

Rota de Ítaca - Marcolino Candeias

.
Foto: Filipe Franco in http://clubezoom.blogspot.com/
Mas se tenho de partir que de novo eu parta
é talvez bem melhor do que ficarem
meus pés no cais chumbados em argola
meus olhos no horizonte ao sonho a velejar.
Que eu parta. E assuma o risco de partir
fender a bruma sobre este coração cerrada
colher num bojador espinhos perfumados
partir e não saber em que angra fundear.
Largar amarras. Ir decifrando
quantos portulanos na vida houver a decifrar.
E se no fim faltar o cais para a chegada
o mar também é terra onde morar.
Marcolino Candeias, Na Distância deste Tempo, 2002

da vida na "ilha"




- Estamos numa ilha. Talvez até não haja aqui gente crescida. (…)


- Ninguém sabe que estamos aqui. (…) Temos de ficar aqui até morrer. (…)


William Golding, O Deus das Moscas



Augusto, embora permanecendo um homem, era obrigado a tornar-se em algo mais: tinha de assumir os poderes de um ser excepcional dotado de um excepcional talento. Tinha de fazer rir as pessoas. (…)
Mais altas, porém, eram as suas ambições – queria dotar os espectadores de uma alegria que se revelasse imperecível. Foi esta obsessão que primeiramente o levou a sentar-se aos pés da escada e simular o êxtase. (…)


Quanto maior era o sucesso desta pequena paródia aos pés da escada, tanto mais sorumbático Augusto se tornava. (…)
Certa noite transformou-se subitamente em mofas e assobios (…). Augusto esquecera-se de «regressar». (…)
Rompido abruptamente o contrato, resolveu fugir daquele seu mundo conhecido. (…)


E então, certo dia, como que numa revelação luminosa apercebeu-se de que já há muito, muito tempo, não conhecia a felicidade. (…)


Tinha começado a viver somente a partir do dia em que se juntara ao grupo, desde o exacto momento em que decidira servir como o mais humilde dos humildes. Aquela vida secreta evaporara-se quase sem ele dar por isso – voltara a ser um homem como os outros, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias, que os outros faziam – e assim conhecera a felicidade, a plenitude dos dias. (…)



Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, exactamente, porque não envolve esforço. (…)



Henry Miller, O Sorriso aos Pés da Escada



Sunday, May 20, 2007

Porque por vezes naufragamos - IV

.
autor (?)



(…) Procurando chegar à superfície, nadei para cima pelo espaço de um, dois, três segundos. Continuei a nadar para cima. Faltava-me o ar. Asfixiava. Tentei agarrar-me à carga, mas a carga já lá não estava. Já não havia nada em redor. Quando cheguei à superfície não vi à minha volta nada que não fosse mar. Um segundo depois, aí a cem metros de distância, o navio surgiu de entre as ondas, deitando água por todos os lados, como um submarino. Só então me apercebi que tinha caído ao mar. (…)

Ao quarto dia já não estava muito seguro das minhas contas em relação aos dias em que já andava na balsa. Eram três? Eram quatro? Eram cinco? (…) Preferi deixar as coisas como estavam, para evitar novas confusões, e perdi definitivamente as esperanças de me virem salvar. (…)

Agora sei que o peixe cru acalma a sede. (…) Decidi embrulhá-lo a camisa e deixá-lo no fundo da balsa para que se mantivesse fresco. Distraidamente, agarrei-o pela cauda e mergulhei-o uma vez por borda fora. Mas o sangue estava coagulado entre as escamas. Era preciso esfregá-lo. Ingenuamente voltei a mergulhá-lo. E foi então que senti a investida e o barulho violento das mandíbulas do tubarão. (…) Voltei a puxar com todas as minhas forças, mas já não havia nada nas minhas mãos. (…)

Nessa manhã tinha optado entre a vida e a morte. Tinha escolhido a morte, e no entanto continuava vivo, com o bocado de remo na mão, disposto a continuar a lutar pela vida. A continuar a lutar pela única coisa que já não me interessava nada. (…)





Gabriel Garcia Marquez, Relato de um Náufrago, 1970


(relato do único marinheiro que sobreviveu após oito homens terem caído de um contratorpedeiro da marinha de guerra da Colômbia, em 1955. Após a sua publicação Gabriel Garcia Marquez foi obrigado a exilar-se.)

Friday, May 18, 2007

semelhanças, que é como quem diz: já ouvi isto em algum lado

Onésimo Teotónio Almeida escreveu que "Pior do que ansiedade de influência na cabeça de quem escreve é descobrir a, afinal, não originalidade de uma frase, um dito, uma expressão, um trocadilho, uma metáfora, um achado linguístico de qualquer espécie que saiu assinada com o nosso nome. Vai um simples mortal escrevendo o que supõe ser verbo seu, puro e inocente, e encontra-o mais tarde escrito por outro, publicado em data anterior. (...) não deve haver escrevente prezado dos seus fundilhos que não sinta voltas no estômago. (...)
Todas as precauções nem sempre chegam para impedir deslizes. Têm-me acontecido. Durante anos habituei-me a citar João de Melo: «Os Açores são lugar de muito mar e pouca terra.» Cheguei mesmo a escrever um texto num livro em inglês em que citei a frase e lhe escarrapachei o nome de João como dono. Há tempos, por mero acaso, dei com ela num livro. Livro meu, isto é. Escrito há dez anos.
Para complicar mais o enredo, contava-o eu em conversa ao Daniel de Sá e ele assegurou-me que dissera algo parecido num jornal anos antes. Mas esse, eu não li nunca. Por acaso." (...) (Viagens na Minha Era - Dia-crónicas, do referido autor).
Ora tudo isto me veio à lembrança ao ler recentemente o Está a fazer-se cada vez mais tarde do Antonio Tabucchi, autor que muito prezo e a quem agradeço que pelo périplo por terras lusitanas nos tenha presenteado com as suas visitas a Porto Pim! Como é sabido, Tabucchi é conhecedor dos nossos lugares e costumes; ainda neste livro passeia-se pelo Porto, dando um salto ao Peter's na Horta, passando de Maria João Pires ao fado de Amália.
Mas não foi sem algum espanto que lhe li a seguinte frase: "E dir-te-ia também que preparei as palavras para a minha lápide, e que são poucas, porque entre a data de nascimento e a que há-de ser a data da minha morte todos os dias me pertencem (...)."
No site Wikipédia encontramos a seguinte descrição de Tabucchi: "Muito namorado de Portugal, e dos melhores conhecedores, crítico e tradutor italiano do escritor português Fernando Pessoa. Tabucchi chega à obra de Pessoa nos anos sessenta, na Sorbona, fica fascinado e no seu retorno a Itália assiste a aulas de português para poder perceber melhor ao poeta."
Remato com Onésimo novamente: "O subconsciente não tem regras. Se tem, não se nos descose."

Thursday, May 17, 2007

Porque por vezes naufragamos - III

.




Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. (…)
- Há-de morder – disse o velho, em voz alta. – Deus permita que ele morda. (…)
- Era meia noite quando o apanhei. E nunca o vi. (…)
O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer. (…)
- Peixe! – disse a meia voz. – Hei-de ficar contigo até morrer. (…)
O velho vira muito peixe graúdo. Vira muitos que pesavam mais de quinhentos quilos, e pescara já dois dessa envergadura, mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista, estava amarrado ao maior peixe que jamais vira, maior do que jamais ouvira, e a mão esquerda continuava enclavinhada como as garras de uma águia. (…)



- Galanos. – Vira vir a segunda barbatana atrás da primeira, e identificara ambos como peixes-martelos, por serem castanhas e triangulares as barbatanas, e pelo varrer das caudas. (…)
Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. (…)


Quando entrou no pequeno porto, as luzes do Terraço estavam apagadas, bem sabia que todos dormiam já.(…)
Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto. (…)
.



Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952

Wednesday, May 16, 2007

Baleia! Baleia! - Manuel Ferreira Duarte

.

Foto: http://www.greenpeace.org/international/photosvideos/photos/sperm-whale-in-the-azores-isl




Baleia! Baleia! é uma dedicatória aos baleeiros, pela coragem como punham pão na mesa e ao mesmo tempo um repúdio público aos que os exploraram…

Baleia! Baleia! é também uma homenagem a quantos os cantaram, muito especialmente a Dias de Melo e à sua prolífera e consagrada obra que a tantos tem inspirado.

Baleia! Baleia! é ainda, e acima de tudo, uma tomada de posição e um apelo. Meu irmão, não as mates, pendura o arpão e demais palamenta no Museu. Quando as vires desde a rocha alta, deixa-as soberanas e livres como tu sulcarem o mar da ilha, de todas as ilhas…

.


Manuel Ferreira Duarte, A Banda Nova e Outras Histórias, 1991

.

Fátima Madruga - Museu dos Baleeiros - Pico


Tuesday, May 15, 2007

Porque por vezes naufragamos - II

.
Numa manhã do mês de Setembro de 1945, foi dado o já conhecido e sempre esperado, com ansiedade, sinal de Baleia. (…)
Ao chegarmos perto do Faial, mais precisamente perto do farol da Ribeirinha, começaram a ser avistadas, por fora do «Salão», lá no horizonte, várias velas brancas, quais pequenos triângulos no cimo das vagas. (…)
Poucos minutos passaram e poucas dezenas de metros tínhamos percorrido quando, na crista de uma onda, e no cavado da mesma, a um quarto de milha de nós, o mar começou a abrir, para surgir o dorso preto-acinzentado duma enorme Baleia a estender-se por cima do mar…
Não atirou o bufo como era habitual. Antes, deixou a água escorrer lentamente pela venta. Estava praticamente imóvel. A nossa posição podia ser considerada óptima; mas seria necessário que tudo se mantivesse, o que previ não ser muito provável. A Baleia tinha sido perseguida durante todo o dia. Estava desconfiada e escutava, procurando, sem respirar e sem se mover, ouvir qualquer ruído estranho. (…)
Sabia o risco que corria, tanto mais debaixo dum quase temporal (…). Sabia que, se conseguisse arpoá-la, seria quase impossível matá-la antes de a noite fechar. Teríamos de ficar ligados a ela toda a noite (…).

Vi o perigo, saltei do meu posto, soltei a adriça do pano, para o baixar… Só que era tarde! A refrega chegara e apanhara o pano na descida, fazendo dele balão. O bote adormeceu, começando a meter água! Íamos revirar?!...
E nisto, surgiu a uns seis metros de mim, o monstro tão desejado! Estávamos no cavado da onda e ela na crista, com a sua cabeça muito por cima da minha, vindo na nossa direcção, sem que pudéssemos fazer alguma coisa! (…)


foto: http://trilhosdelava.no.sapo.pt/



Olhei para a frente. A Baleia estava mesmo a passar; vi emergir da água o seu pequeno olho. Apesar das circunstâncias, fixei esse pequenino olho, não sei explicar porquê!... Mas aquela Baleia estava a olhar-me; tive mesmo a impressão de que me via na retina dela… E deve ter sido assim, porque o seu movimento de medo não se fez esperar, atirando-se para fora do bote a rolar sobre ela mesma. Sentiu-se um estalo: era a retranca que a Baleia acabara de partir com a cabeça! (…)
Nun’Álvares de Mendonça, Memórias de um Baleeiro. Açores 1930-1945, 1993
.

Nota: O último cachalote foi caçado nos mares dos Açores em 1987. As técnicas de caça não evoluíram desde a época do Moby Dick. A caça Açoriana foi sempre artesanal, a aproximação era feita à vela e de arpão na mão. Numa época de grande pobreza, representou o sustento de inúmeras famílias.
Hoje continua a ser possível partir à aventura e observar baleias e nadar com os golfinhos no mar dos Açores.


Porque por vezes naufragamos - I

.
Foto: Sérgio Ávila
.

(…) E ficou, só, na bruma espessa, na morrinha da noite caindo negra no mar de procela. Só – na «Ilha Morena» a contorcer-se, como criatura, nas convulsões das vagas que por todos os lados a espancavam, estoirando-lhe no casco, enrodilhando-se no corpo, no jeito de lho quererem abafar, estrangular, matar. (…)
E lutava. Lutava agarrado ao esparrela, na ânsia de dominar a lancha, safá-la às vagas de través, tomar rumo de esperança naquele deserto negro de incertezas tumultuosas. Lutava – esgotando a carga de água que andava no poção, lhe lambia os pés, subia a meio das canelas. Lutava – por vencer os espectros do medo a borbulharem-lhe nas veias, a cocegarem-lhe no coração. (…)
Pobres! Pobres companheiros!
(…)
- Saímos onze do Cais do Pico (…) e quatro são os que restam. (…)
- E agora tudo se acabou!
- Não! Mil vezes não! Aqui, nada se acabou, porque tudo vai começar de novo!


Três dias. Foram três dias. Ou foram três séculos? Ou três milhares de séculos? (…)
- O homem, que é homem, não há nada neste mundo que o possa vencer, senão a morte. E nós estamos vivos! (…)
.


Dias de Melo, Mar Pela Proa, 1973
(em memória dos baleeiros que pereceram no desastre do canal)

Monday, May 14, 2007

O verbo no infinito - Vinicius de Moraes

.
Foto: Spencer Tunick
Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
Vinicius in Livro de Sonetos

Friday, May 11, 2007

O meu olhar - Alberto Caeiro

.
Modelo :-) Rodrigo Dutra


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...


O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...



Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

Thursday, May 10, 2007

Poeta - Adolfo Casais Monteiro

.
Foto: Marta Azevedo in http://www.olhares.com/Martita
Poeta: uma criança em face do papel.

Poema: os jogos inocentes,

invenções de menino aborrecido e só.

A pena joga com palavras ocas,

atira-as ao ar a ver se ganha o jogo;

os dados caem: são o poema. Ganhou.


Adolfo Casais Monteiro


.

PARA O DUARTE:

À Mesa


A mãe, se me vê

comer com a mão,

prega-me logo

uma lição.


Então, tentei

comer com o pé:


Tirei sapato,

tirei a meia...

Ia levando

uma tareia.


Mas amanhã

não ralham comigo

pois vou comer

pelo umbigo.


Luísa Ducla Soares

As palavras - José Saramago

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos «slogans» publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
José Saramago

Wednesday, May 09, 2007

à flor da pele - Victor Rui Dores

.
Foto: Paulo César in http://www.olhares.com/ksar





desfrutar o teu corpo

e dizer água do mar

ou úbere da terra



sentir

a suprema lentidão da língua

e abordar os lábios inquietos

e insaciáveis

...



apertar

as tuas mãos que me despem

na fúria salgada das marés

e dizer-te este desespero

de te possuir

rente aos lábios

...



eu existo

no mais íntimo de ti.

afogo-me no teu fogo

(e não sei de glória maior)



Victor Rui Dores in à Flor da Pele



Monday, May 07, 2007

.

hoje não tenho cores novas. as pautas fecharam-se - inventem-se notas. não consigo conjugar mais compassos, semipausas, mínimas, as semibreves foram roubadas. aqui não tenho fundo, nem ouço os mares. ficaram só os despojos de uns gritos que não reconheço. dentro de mim. tudo o mais se foi.
marta dutra

Não cantarei o mar - Nuno Costa Santos

.

«(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha)»
Carlos Drummond de Andrade


Não cantarei o mar
que me chega
por entre as árvores
neste nocturno regresso a casa
mas é neste instante
que percebo:
não sou das cidades
das donas
do casal que todas as manhãs
me vende os jornais
do homem da garagem
que às vezes não me cumprimenta
por timidez
das raparigas
que se vão substituindo
em frente aos croissants
no trimestral emprego da pastelaria.
Não cantarei o mar
mas é neste instante
que percebo
sou daqui
deste som de ondas batendo
deste tempo quieto, quase terno
desta espuma que
atravessa oculta
os eucaliptos
para me tocar
enfim o coração.



Nuno Costa Santos
(enviado por Olegário Paz)

Friday, May 04, 2007

Elegia - Emanuel Félix

.
Foto: António Manuel Pinto da Silva in
http://www.olhares.com/t silva





Quando a manhã rasgou o coração do poeta
voavam pássaros dos teus ombros
e o tempo era uma laranja azul
rolando nos teus dedos meninos

Quando a manhã rasgou o coração do poeta
colhias no jardim os versos puros
da primeira canção

Quando a tarde chegou ao coração do poeta
com flores breves e conchas
desenhavas
nas horas quase brancas
teu caminho de abelha

Ah mas o sol morreu no coração do poeta
e uma andorinha tristemente vem
com um ramo de vento
pairar a tua ausência


Emanuel Félix in A viagem possível