Tuesday, April 24, 2007

Fala do homem nascido - António Gedeão

Foto: António Gama in http://www.olhares.com/gamadu


(Chega à boca da cena, e diz:)


Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.


Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.



Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.


Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.


Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.


Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.



António Gedeão in Teatro do Mundo

Friday, April 20, 2007

A realidade aqui...- Urbano Tavares Rodrigues

Foto: MarkLaranjo in www.acores.net
"O vento borrifa-me o rosto de sal. A areia toda molhada lembra aquelas praias cor-de-rosa que apareciam nos romances do Elio Vittorini dos meus trinta anos.

Há uma vela vermelha, insólita, a atravessar os carneirinhos no que se vê de horizonte e parece dirigir-se para a torre esfumada, quase inexistente, onde quero que habite algum faroleiro filósofo e solitário. (...)

A realidade aqui, nesta costa da saudade, supera sempre em grandeza as descrições que dela se façam, mesmo manchas tão impressivas como as que o Raúl Brandão nos convida a ler em Os Pescadores, tal, por exemplo, esta:

«Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de pedra, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O sol desce pouco a pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensaguentada e chega ao sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu!.»"



Urbano Tavares Rodrigues in Margem da Ausência

Thursday, April 19, 2007

Sou do tamanho do que vejo

Peripécia Teatro Fernando António Nogueira Pessoa (Fernando Pessoa)


"O espectáculo nasce de alguns textos que, como fragmentos encontrados no mítico baú do autor, se convertem numa mensagem ao público, como as que lançavam os náufragos das suas ilhas desertas. Vai-se tecendo um diálogo com o espectador, feito de cumplicidades, confissões, graças, reprovações, mal-entendidos e surpresas… e em que os actores brincam a ser um e vários ao mesmo tempo, algo muito próprio de todas/os as/os Pessoas. Atrever-se a seguir Fernando Pessoa, é atrever-se a olhar o mundo e nós próprios com uma radical transparência, desfazer os preconceitos, as grandes ideologias, os grandes sistemas de pensamento. É descobrir como crianças a terrível beleza que nos rodeia e a partir daí aprender a ser outros… Nada parece mais necessário e actual."
Assisti e adorei!

Saturday, April 14, 2007

tenho aquela que me olha e que olho - josé luís peixoto

Foto: Mateus Moreno in http://www.olhares.com/mcm250680


tenho aquela que me olha e que olho
e misturamo-nos como brisas e
silêncios e digo tenho aquela que
me vê e ela olha-me e tudo o
que somos é uma partilha uma
mistura e digo diz e aquela que
tenho beija-me num olhar e num
silêncio que não posso dizer
.
como não tenho lugar no silêncio onde morrem as gaivotas,
despeço-me no oceano e deixo que o céu me conheça.
talvez a serenidade possa ser as minhas mãos a serem uma
brisa sobre a terra e sobre a pele nua de uma mulher.
esse dia, esperança de amanhã, poderá chegar e estarei dormindo.
hoje, sou um pouco de alguma coisa, sou a água salgada
que permanece nas ondas que tudo rejeitam e expulsam
na praia. as gaivotas sobrevoam o meu corpo vivo. os meus
cabelos submersos convidam o silêncio da manhã, raios de sol atravessam
o mar tornados água luminosa, aqui, estou vivo e sou alguém
muito longe.
.
José Luís Peixoto in a criança em ruínas

Tuesday, April 03, 2007

Verde que te quero verde - Lorca



Sinto o abraço mineral dos montes
que me envolve o corpo e me faz planta.
Saio da galáxia da cidade
e transformo-me no ar em coisa leve:
deixo de falar e apenas vivo.
Então eu sou, e os pássaros flutuam
por cima dos pinhais. Sou eu, verde
no verde que cobre o dia inteiro.
Transformo-me em ausência, vou-me embora
coberta de flores ainda em botão.
Sou eu enquanto alcanço a terra
e os montes me dizem o que são.


Federico Garcia Lorca (enviado por Olegário Paz)