Friday, March 23, 2007

num momento de paz - a. gualdino correia


Foto: Miguel Pereira in http://www.olhares.com/jmp76
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num momento de paz
procurei ver o indizível das coisas
saber o que sou nas horas de prazer
saber o que sinto nas horas de sofrer
ler, ver, receber a luz do papel contrastado
perceber onde me escondo da vida,
que lugar é esse, a vida,
e onde se esconde ela de mim,
saber o porquê de ter o conhecimento em mim
e não ter a cor que dá sentido a esse saber...
cortei-me no papel do ser vezes sem conta
dores agudas de golpes invisíveis
na pele que arde, nas mãos que escrevem
nas mãos que tocam, nas mãos que pedem
na ânsia de querer
no querer ardente de uma vida sonhada
composta de desejo, de sentimento, de alma

o sofrimento existe para lembrar
que o homem pode ser feliz, uma vez...
antónio gualdino correia

Thursday, March 22, 2007

E de novo acredito... - M. Sousa Tavares

Foto: Helder Freitas in http://www.olhares.com/SaxMar

"(...) E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se acabaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
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Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crockett
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"(...) And again I belive that we don't really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever."

Tuesday, March 20, 2007

Por quem os sinos dobram

M.C.Escher

Nenhum homem é uma ilha, completa em si;
Cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo.
Se um torrão for arrastado pelo mar,
A Europa fica diminuída, como se de um promontório se tratasse,
Como se da casa dos teus amigos ou da tua se tratasse;
A morte de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do género humano;
E por isso, nunca perguntes
por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.
John Donne, Meditation XVII
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[No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bells tolls; it tolls for thee. ]

Saturday, March 17, 2007

Movimento de partida - João de Melo

Foto: Marta Dutra - Horta


Creio que o primeiro movimento da infância foi o da partida. (Mais tarde, compreendi que era o movimento total e definitivo dos Açores: o do seu despovoamento). Conheci-o quando as pessoas das casas vizinhas entravam numa espécie de contagem decrescente de tudo o que então as rodeava. Começavam por despedir-se do mar, da agricultura, das vacas, dos instrumentos e ofícios, e depois paravam ao canto de cada rua, com uns olhos subitamente saudosos e tristes, como se estivessem para separar-se não da aldeia e da família, mas da própria vida. Um dia, manhã muito cedo, acordámos com os seus agudos e lancinantes gritos de náufragos. Corremos à porta da rua e ficámos a assistir ao espectáculo dessa dor única e familiar dos que se iam embora para longe. Havia um táxi parado à porta, com o motor a funcionar, e o homem do táxi ajudava a acomodar as malas no porta-bagagem: parecia indiferente aos gritos, porque era a única pessoa com os olhos enxutos e o rosto sereno - mas tinha também uma palidez fria e matinal, a denunciar o embaraço daquelas despedidas. Quando o táxi subiu a Rua Direita, vi os lenços a acenar, ouvi os gritos dos que ficavem, e enchi-me de uma vaga dor de alma, ao mesmo tempo alheia e saída do fundo das minhas lágrimas. Um dia seria a minha vez de ficar ali e dizer adeus à família, ou de ser eu a partir da minha terra, rumando aos caminhos, aos barcos e aos aviões da emigração.
O escoamento da minha família da ilha para fora, iniciou-a a tia Urbana, ao decidir, quase de um dia para o outro, embarcar para o Brasil, numa fuga madrugadora e clandestina. Tomaria o barco para Lisboa, depois um avião para S. Paulo, e assim se perderia da ilha e da nossa memória dela. Mal me recordo do seu rosto seco e pequenino, tão circunspecto como o do meu pai. Mas lembro-me perfeitamente que a vimos partir à frente da camioneta do Nordeste, tão cedo quanto o permitiam as primeiras luzes da manhã, sendo a sua intenção andar um bocado de caminho até ser apanhada na estrada, para assim poupar o preço de meio bilhete na passagem para a cidade de Ponta Delgada.
A tribo da família despediu-se dela à ponta da freguesia, de saída Para o Caminho Novo, e ficou a assitir à lenta e progressiva extinção na maçã rosada do dia e do destino. Vi-a subir a rampa do Caominho Novo, voltar-se de vez em quando para trás, dizer adeus, limpar as lágrimas ao lenço com que acenava; desapareceu no alto da curva, onde a estrada começava a descer para a ribeira da Salga, e nunca mais voltei a ver o seu pequeno rosto de símio. Porém os adultos que comigo estavam puseram-se a espiar-lhe os passos pela estrada abaixo. Instigaram-me a abrir bem os olhos, a vê-la lá muito ao longe, descrevendo a curva do Redondo, passando entre os manchos de hortênsias azuis que muravam a estrada. Diziam que lá ia ela, com a sua cabeça a dar a dar, olhando em frente, sempre e só em frente. Eu, que deixara de vê-la, concluí que a minha tia Urbana era afinal uma questão de fé. Todos precisavam de acreditar na partida e na passagem dela, tanto quanto ainda hoje eu creio na sua existência brasileira. Por isso decidi também mentir a mim próprio e dizer aos outros que sim: era verdade, eu continuava a avistá-la ao longe, nos confins da estrada e do destino. Para que me acreditassem, acenei-lhe com grandes e repetidos gestos de adeus e despedida, como faziam os tios e os primos que ali tinham vindo para a chorar. Contudo, bem no fundo da alma, apenas me despedia da infância e da família, do tempo e da idade - os quais nunca mais pararam de perseguir-me, de me levar no vento, de comigo se perderem entre memórias, prazeres, sombras, fios, ecos, claridades, amarguras da vida.
Movimento de partida - João de Melo in Boletim Cultural Fundação Calouste Gulbenkian, Dez. 1994
martadutra7@gmail.com

Wednesday, March 14, 2007

Pico - Manuel Alegre

Foto: Marta Dutra - Faial


INICIAÇÃO

Gostava de aprender a linguagem do peixe.
O recado do golfinho para o golfinho
A fala da baleia.
Ou o grito da gaivota para a gaivota.
O som inarticulado de qualquer latido.
Ou o simples zumbido. Ou o silêncio
carregado
de sinais.
Talvez então o sentido primordial.
O ritmo inicial e iniciático do poema.
A batida do mar. A batida do vento.
A batida da terra.


ILHA DE BRUMA

Eu buscava uma ilha sobre o vento e a espuma
a que só era de ser a sempre ausente
ilha nenhuma.

Agora tenho-a à minha frente
ilha de bruma

Buscava um lugar santo um canto um cântico
um triângulo mágico uma palavra um fim.
E vejo um grande pico sobre o atlântico
e uma ilha a nascer dentro de mim.

in Pico - Manuel Alegre

Livre-arbítrio - José Eduardo Agualusa


Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era Inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio.
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Ferando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio no tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: " como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n'A Brasileira, toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre-arbítrio..."
"O que tem o livre-arbítrio?"
"O livre-arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre-arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de Inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assutou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, as imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe o livre-arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Umá água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros trauseuntes que passaram, apressados, diante d'A Brasileira, estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
Livre-Arbítrio in Contos que contam - José Eduardo Agualusa
martadutra7@gmail.com

Tuesday, March 13, 2007

O gémeo e a sombra - João de Melo

Eu, que gosto tanto do mar e da sua voz que por vezes adivinho até no encadeamento obscuro dos meus sonhos, tenho por hábito passear sozinho ao longo da praia, de onde posso admirá-lo ou ficar a ouvi-lo sob a luz branca dos fins de tarde. Vou por ali fora, sozinho, entregue aos meus pensamentos, caminhando ao rés das fímbrias de água que as ondas baldeiam sobre a areia húmida, tornando-a plana e lisa como vidro. Recebo do mar a sua paz azul que me entra pelos olhos e que enche de inconfessáveis segredos o meu coração. Sinto-a como um suspiro na pele. A voz do mar traz até mim essa música do indefinido que por certo existe por detrás do silêncio, nas regiões da alma e no limite extremo do ser. Ouço nela a minha mãe cantar. (...) Não sei que outras coisas escuto: se o infinito que se foi embora para sempre com ela, se o princípio de mim mesmo no corpo materno, se tão-só as já longínquas histórias da minha infância.
Desde que ela morreu, creio absolutamente no meu regresso ao mar. Porque a vida da minha mãe não terminou ainda; apenas se mudou do júbilo vivo da terra para as tais regiões do espírito que agora caminha sobre as águas. (...)
Penso nisso todas as vezes que o mar me chama para junto de si e eu me ponho a passear na praia, de cá para lá e de lá para cá, à frente das ondas. (...)
Inundam-se-me então os pés de espuma e areia. Só o mar é grande. E só ele me transmite o sentimento da sua grandeza a perder de vista: uma paz cansada e tranquila, o tempo numa única mistura de mágoa, alegria e água, da qual se sustenta a minha alma. Todo ancorado em mim, e comigo, o mar. No coração, nas veias. Como uma seiva que, em árvore, irrigasse de sal e de paz a minha cabeça.
(Hoje, então, esta enormíssima dor de mar!... Algo como uma saudade muito antiga, mas em presença dele. Como quando, enfim, estando nós perante a pessoa amada de que vamos ter de separar-nos, o coração se enche de uma dor ausente e futura, de uma melancolia que ainda está para chegar. Na hora da despedida, todos os amores se tornam maiores do que a própria vida: esse, precisamente, o meu caso.)
Enquanto caminho pela areia adiante, o som dos meus passos entra no ruído e no movimento das ondas, extingue-se na sonatina do mar. Leva-o comigo a brisa. Porque a brisa é tão-só um elemento de mistura, o lugar de encontro de duas vozes que não se dissolvem nem se fundem uma na outra. A minha voz é o silêncio. E a voz do mar transforma-se numa substância líquida e sonora que se expande por cima da minha cabeça. Sempre que assim acontece, deixam de existir para mim o céu, as cores da paisagem, os ruídos do mundo que passa na estrada, lá muito ao cimo da praia. E não há mais ninguém sobre a face da Terra. Só eu perante esse mar aéreo e superior que me fecha por dentro da concha da sua abóbada. Torno-me nele eterno e universal.
Saindo de dentro de mim, vou até ao limite de uma outra dimensão que não me pertence. Em volta, fica a pairar o silêncio todo do mundo. E então deixam de passar nuvens e aves no céu. Também o firmamento não existe. Mesmo o vento já não é aquele ser vivo que viaja de um continente para outro. Apenas o azul e eu perante esse absoluto de mar que será talvez o princípio e o fim das coisas criadas por Deus. Ou pelo Diabo, nunca o soube ao certo.
Pela areia adiante, caminharei pois até ao infinito de mim mesmo. Sozinho com os meus pensamentos. Mas pensar cansa tanto como levar um peso morto dentro da cabeça. E dói como um espinho encravado num calcanhar. Toda a vida me tem doído pensar. Paro, afasto de mim os pensamentos. Sem eles, os olhos ficam mais lúcidos; e o sofrimento deixa de pesar sobre o coração. (...)
Estendo a mão à minha sombra, vejo que ela corresponde ao gesto: a mão do meu irmão une-se logo à minha, como se desde sempre fosse a parte que lhe faltava. De mãos dadas, caminhamos ambos para o mar. Vamos pela água, vamos sobre as águas, e depois pousamos nelas como pousam os anjos ou as aves ao caírem do céu com a tarde. Logo a seguir, entramos no doce imaculado silêncio do mar - cada vez mais silêncio, e mais doce à medida que descemos ao fundo dele. Além do silêncio, o escuro. Mas é do fim das trevas do mar que de novo se ergue vinda direita a nós, a canção da nossa mãe. A sua voz é outra vez tão nítida como aquela laranja de Lua que nos envia o luar nas noites de Setembro. Sentimos as mãos dela em volta do nosso corpo-sombra, e depois a afagarem-nos a cabeça. Por fim, a mãe abraça-nos contra o seu imenso seio oceânico, o mesmo de outrora, pegando-nos de novo a ambos ao colo, um em cada braço - e nós lá vamos com ela não sei bem para onde, talvez para um lugar marinho qualquer, um lugar de ausência que é suposto ser o sítio das mães mortas que perduram cantando sob o mesmo sol branco do mar - o qual acende agora toda a luz sobre a praia e aquece na minha alma a dor, a única esperança de me salvar.
O gémeo e a sombra in As coisas da alma - João de Melo
martadutra7@gmail.com

Friday, March 09, 2007

14. Cubro toda a terra daqui...

Foto: Marta Dutra - Horta

Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é o efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em cima,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem o canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortências,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual me ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que eles têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
dealbular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortências,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
As nuvens enegrecem o canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.

Rui Coias in A Função do Geógrafo

Thursday, March 08, 2007

Canto de mim mesmo - XLVI

Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e nunca serei medido.
A minha viagem é eterna, (venham todos ouvir-me!),
Os meus sinais são de uma gabardine, bons sapatos e um cajado que cortei no bosque,
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à Biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público.

Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti esse caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.

Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.

Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressêmo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.

Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.

Hoje, antes do alvorecer, subi a uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos
o prazer e o saber de quanto nelas há sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem,
é só para continuar mais além.

Tu também interrogas e eu escuto,
Respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti.

Senta-te um instante, meu filho,
Aqui tens bolachas para comer e leite para beber,
Mas logo que adormeças com a tua roupa fresca, dar-te-ei um beijo de
despedida e abrir-te-ei a porta para que partas.

Tempo que baste já sonhaste os teus sonhos maus,
Agora afasto as remelas dos teus olhos,
Deves habituar-te ao esplendor da luz e de cada momento da tua vida.

Muito tempo rondaste timidamente a praia agarrado a uma tábua,
Agora quero que sejas um nadador intrépido,
Que saltes no meio do mar, que te ergas outra vez, que me faças sinal, grites
e rias enquanto a água cai dos teus cabelos.

Walt Whitman in Canto de Mim Mesmo

martadutra7@gmail.com

Wednesday, March 07, 2007

Acho tão natural...

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedas e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro

.
I find it so natural not to think
I start to laugh sometimes, all alone,
I don’t really know why, but it’s about something
To do with knowing there are people who think...

What is my wall thinking about my shadow?
I ask myself this sometimes until I notice
I’m asking myself things...
And then I get mad at myself, and feel uncomfortable
Like when my foot falls asleep...

What does this think about that?
Nothing thinks about anything.
Does the earth have consciousness of its stones and plants?
If it did, it would be people. . .
Why am I worrying about this?
If I think about these things,
I’ll stop seeing trees and plants
And stop seeing the Earth
For only seeing my thoughts...
I’ll get unhappy and stay in the dark.
And so, without thinking, I have the Earth and the Sky.