Thursday, July 12, 2007

Ocupações de Verão - Eugénio

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fOTO: mIGUEL p. dIAS in http://www.olhares.com/Chavesmig



Ocupações de Verão

Finalmente disponho de tempo, disponho mesmo do tempo todo, posso fazer o que quiser dos meus dias, por exemplo, estender-me ao sol e aguardar a chegada das formigas. Não podem tardar, e quando chegarem já aqui me encontram, a mim, que sou vacilação, ou o que restar de mim, boa-noite, umas sandálias, uns óculos, algumas sílabas quase de vidro. Tenho de pensar no que direi a criaturas tão susceptíveis; seria de mau gosto distraí-las das suas ocupações, falar-lhes-ei do trigo vermelho da Hungria, às vezes quase violeta, dos cardos de Epidauro rastejando na terra, à procura do coração da água. Mas quando me voltei para seguir o voo do pássaro, apercebi-me que o tempo mudara, as formigas já não viriam. Com efeito o sol escurecera, a chuva não tardaria, torrencial. Quem me ajudará agora a rilhar a eternidade?


Se o vento vier

De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pensava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.


Eugénio de Andrade

1 comment:

João Ricardo Lopes said...

"... algumas sílabas quase de vidro..."

Olá, Marta! Obrigado por partilhar estes pedaços de luz! Sabe semrpe bem regressar aqui, no meio da parafernália dos dias e dos ofícios!

Um beijo