Tuesday, July 03, 2007

Dissolução no corpo - Octávio Mora

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Foto: Maria Isabel Batista in http://www.olhares.com/Farisa
Dissolve-se-me o rosto.
Os lábios, ao silêncio, de regresso,
ao hálito a linguagem:
não sinto o gosto
que tinham as palavras. E, confesso:
sou só imagem.
Perco a lembrança, oca,
de tudo o que recordo. Posso estar
com a terra a meus pés
que será pouca
para tudo que ando ao arrastar
suas marés.
Sempre que a terra consegue
adiante de todos os meus passos
estar: inamovível.
Passiva: entregue.
Sob os meus pés e longe dos meus braços:
em outro nível.
São seus rios meus rastos.
Deixo sobre seu rosto minha face
já sem identidade.
Busco outros pastos.
Preso a seus gestos ficará, quem nasce,
em liberdade.
Dissolve-se-me a voz.
Ao silêncio geral estou de volta:
com água pela testa
e os cegos nós
de quem, árvore, fica, se as mãos solta,
preso à floresta.
Octávio Mora

1 comment:

jose augusto soares said...

Belo poema.

Há momentos assim, em que tudo se desprende, não há ponto de apoio, e surge a interrogação perene: quem sou?