Friday, May 18, 2007

semelhanças, que é como quem diz: já ouvi isto em algum lado

Onésimo Teotónio Almeida escreveu que "Pior do que ansiedade de influência na cabeça de quem escreve é descobrir a, afinal, não originalidade de uma frase, um dito, uma expressão, um trocadilho, uma metáfora, um achado linguístico de qualquer espécie que saiu assinada com o nosso nome. Vai um simples mortal escrevendo o que supõe ser verbo seu, puro e inocente, e encontra-o mais tarde escrito por outro, publicado em data anterior. (...) não deve haver escrevente prezado dos seus fundilhos que não sinta voltas no estômago. (...)
Todas as precauções nem sempre chegam para impedir deslizes. Têm-me acontecido. Durante anos habituei-me a citar João de Melo: «Os Açores são lugar de muito mar e pouca terra.» Cheguei mesmo a escrever um texto num livro em inglês em que citei a frase e lhe escarrapachei o nome de João como dono. Há tempos, por mero acaso, dei com ela num livro. Livro meu, isto é. Escrito há dez anos.
Para complicar mais o enredo, contava-o eu em conversa ao Daniel de Sá e ele assegurou-me que dissera algo parecido num jornal anos antes. Mas esse, eu não li nunca. Por acaso." (...) (Viagens na Minha Era - Dia-crónicas, do referido autor).
Ora tudo isto me veio à lembrança ao ler recentemente o Está a fazer-se cada vez mais tarde do Antonio Tabucchi, autor que muito prezo e a quem agradeço que pelo périplo por terras lusitanas nos tenha presenteado com as suas visitas a Porto Pim! Como é sabido, Tabucchi é conhecedor dos nossos lugares e costumes; ainda neste livro passeia-se pelo Porto, dando um salto ao Peter's na Horta, passando de Maria João Pires ao fado de Amália.
Mas não foi sem algum espanto que lhe li a seguinte frase: "E dir-te-ia também que preparei as palavras para a minha lápide, e que são poucas, porque entre a data de nascimento e a que há-de ser a data da minha morte todos os dias me pertencem (...)."
No site Wikipédia encontramos a seguinte descrição de Tabucchi: "Muito namorado de Portugal, e dos melhores conhecedores, crítico e tradutor italiano do escritor português Fernando Pessoa. Tabucchi chega à obra de Pessoa nos anos sessenta, na Sorbona, fica fascinado e no seu retorno a Itália assiste a aulas de português para poder perceber melhor ao poeta."
Remato com Onésimo novamente: "O subconsciente não tem regras. Se tem, não se nos descose."

2 comments:

jose augusto soares said...

Já fez mais por Portugal que muito boa gente que aqui nasceu...

E é tão pouco divulgado...

jose augusto soares said...

Já fez mais por Portugal do que muito boa gente aqui nascida...

E é tão pouco divulgado...