Tuesday, May 22, 2007

Porque por vezes naufragamos - V

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Fonte: Greenpeace



«Que diabo se passa no nosso mar?», perguntávamos a nós mesmos. E numa manhã de Verão, em 1984, tivemos a resposta. (…)
«Vimos um barco-fábrica de mais de cem metros de comprido, várias cobertas, parado mas com as máquinas a toda a força. Aproximámo-nos até que reconhecemos a bandeira japonesa pendente à popa. (…)
«Com uma tubagem de uns dois metros de diâmetro sugavam o mar. Puxavam-no todo, provocando uma corrente que sentimos debaixo da quilha e, depois de passado o aspirador, o mar ficou transformado num escuro caldo de águas mortas. (...) Com as respiração quase paralisada de horror vimos como várias crias de golfinhos eram sugadas e desapareciam. (…)

Senti que estava a chegar ao fim de uma longa viagem. (…) Pensei em desembarcar o Pedro Pequeno e depois atirar-me com o Finisterre a toda a força contra a casa das máquinas do Nishin Maru. Trago quinhentos litros de combustível a bordo (…) O Pedro leu-me os pensamentos(…). Vio-o remar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima (…)

«A dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto do escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro homem ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.

«Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishin Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-nos para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo. Alguns tripulantes insensatos lançaram barcos salva-vidas que mal tocavam a água eram destruídos com pancadas das caudas. A outros vi-os eu cair à água durante as investidas. Logo se declarou um incêndio a bordo, o helicóptero ardeu na coberta da popa, e Tanifuji deu ordem para se afastarem a toda a força das máquinas, sem se preocuparem com a sorte dos tripulantes que ainda se agitavam dentro de água e que foram implacavelmente despedaçados pelas baleias e pelos golfinhos.

«Custa-lhe a acreditar em tudo isto? Claro que é incrível, mas amanhã verá com os seus próprios olhos o lugar e os restos da batalha.



Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo, 1989

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