Sunday, May 20, 2007

Porque por vezes naufragamos - IV

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autor (?)



(…) Procurando chegar à superfície, nadei para cima pelo espaço de um, dois, três segundos. Continuei a nadar para cima. Faltava-me o ar. Asfixiava. Tentei agarrar-me à carga, mas a carga já lá não estava. Já não havia nada em redor. Quando cheguei à superfície não vi à minha volta nada que não fosse mar. Um segundo depois, aí a cem metros de distância, o navio surgiu de entre as ondas, deitando água por todos os lados, como um submarino. Só então me apercebi que tinha caído ao mar. (…)

Ao quarto dia já não estava muito seguro das minhas contas em relação aos dias em que já andava na balsa. Eram três? Eram quatro? Eram cinco? (…) Preferi deixar as coisas como estavam, para evitar novas confusões, e perdi definitivamente as esperanças de me virem salvar. (…)

Agora sei que o peixe cru acalma a sede. (…) Decidi embrulhá-lo a camisa e deixá-lo no fundo da balsa para que se mantivesse fresco. Distraidamente, agarrei-o pela cauda e mergulhei-o uma vez por borda fora. Mas o sangue estava coagulado entre as escamas. Era preciso esfregá-lo. Ingenuamente voltei a mergulhá-lo. E foi então que senti a investida e o barulho violento das mandíbulas do tubarão. (…) Voltei a puxar com todas as minhas forças, mas já não havia nada nas minhas mãos. (…)

Nessa manhã tinha optado entre a vida e a morte. Tinha escolhido a morte, e no entanto continuava vivo, com o bocado de remo na mão, disposto a continuar a lutar pela vida. A continuar a lutar pela única coisa que já não me interessava nada. (…)





Gabriel Garcia Marquez, Relato de um Náufrago, 1970


(relato do único marinheiro que sobreviveu após oito homens terem caído de um contratorpedeiro da marinha de guerra da Colômbia, em 1955. Após a sua publicação Gabriel Garcia Marquez foi obrigado a exilar-se.)

1 comment:

ANTÓNIO GÓIS said...

Blog espectacular, parabens Marta