Thursday, May 17, 2007

Porque por vezes naufragamos - III

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Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. (…)
- Há-de morder – disse o velho, em voz alta. – Deus permita que ele morda. (…)
- Era meia noite quando o apanhei. E nunca o vi. (…)
O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer. (…)
- Peixe! – disse a meia voz. – Hei-de ficar contigo até morrer. (…)
O velho vira muito peixe graúdo. Vira muitos que pesavam mais de quinhentos quilos, e pescara já dois dessa envergadura, mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista, estava amarrado ao maior peixe que jamais vira, maior do que jamais ouvira, e a mão esquerda continuava enclavinhada como as garras de uma águia. (…)



- Galanos. – Vira vir a segunda barbatana atrás da primeira, e identificara ambos como peixes-martelos, por serem castanhas e triangulares as barbatanas, e pelo varrer das caudas. (…)
Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. (…)


Quando entrou no pequeno porto, as luzes do Terraço estavam apagadas, bem sabia que todos dormiam já.(…)
Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto. (…)
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Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, 1952

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