Tuesday, May 15, 2007

Porque por vezes naufragamos - II

.
Numa manhã do mês de Setembro de 1945, foi dado o já conhecido e sempre esperado, com ansiedade, sinal de Baleia. (…)
Ao chegarmos perto do Faial, mais precisamente perto do farol da Ribeirinha, começaram a ser avistadas, por fora do «Salão», lá no horizonte, várias velas brancas, quais pequenos triângulos no cimo das vagas. (…)
Poucos minutos passaram e poucas dezenas de metros tínhamos percorrido quando, na crista de uma onda, e no cavado da mesma, a um quarto de milha de nós, o mar começou a abrir, para surgir o dorso preto-acinzentado duma enorme Baleia a estender-se por cima do mar…
Não atirou o bufo como era habitual. Antes, deixou a água escorrer lentamente pela venta. Estava praticamente imóvel. A nossa posição podia ser considerada óptima; mas seria necessário que tudo se mantivesse, o que previ não ser muito provável. A Baleia tinha sido perseguida durante todo o dia. Estava desconfiada e escutava, procurando, sem respirar e sem se mover, ouvir qualquer ruído estranho. (…)
Sabia o risco que corria, tanto mais debaixo dum quase temporal (…). Sabia que, se conseguisse arpoá-la, seria quase impossível matá-la antes de a noite fechar. Teríamos de ficar ligados a ela toda a noite (…).

Vi o perigo, saltei do meu posto, soltei a adriça do pano, para o baixar… Só que era tarde! A refrega chegara e apanhara o pano na descida, fazendo dele balão. O bote adormeceu, começando a meter água! Íamos revirar?!...
E nisto, surgiu a uns seis metros de mim, o monstro tão desejado! Estávamos no cavado da onda e ela na crista, com a sua cabeça muito por cima da minha, vindo na nossa direcção, sem que pudéssemos fazer alguma coisa! (…)


foto: http://trilhosdelava.no.sapo.pt/



Olhei para a frente. A Baleia estava mesmo a passar; vi emergir da água o seu pequeno olho. Apesar das circunstâncias, fixei esse pequenino olho, não sei explicar porquê!... Mas aquela Baleia estava a olhar-me; tive mesmo a impressão de que me via na retina dela… E deve ter sido assim, porque o seu movimento de medo não se fez esperar, atirando-se para fora do bote a rolar sobre ela mesma. Sentiu-se um estalo: era a retranca que a Baleia acabara de partir com a cabeça! (…)
Nun’Álvares de Mendonça, Memórias de um Baleeiro. Açores 1930-1945, 1993
.

Nota: O último cachalote foi caçado nos mares dos Açores em 1987. As técnicas de caça não evoluíram desde a época do Moby Dick. A caça Açoriana foi sempre artesanal, a aproximação era feita à vela e de arpão na mão. Numa época de grande pobreza, representou o sustento de inúmeras famílias.
Hoje continua a ser possível partir à aventura e observar baleias e nadar com os golfinhos no mar dos Açores.


2 comments:

jose augusto soares said...

É sempre bom recordar estes heróis, para quem a baleia era o sustento.
"A memória ainda perdura"!

Obrigado por este post.

Marco said...

Olá Marta.
Obrigado pela visita e pelo comentário no "Antigamente".
Também lá tenho postais antigos de Aveiro.
Cumprimentos.