Tuesday, May 15, 2007

Porque por vezes naufragamos - I

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Foto: Sérgio Ávila
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(…) E ficou, só, na bruma espessa, na morrinha da noite caindo negra no mar de procela. Só – na «Ilha Morena» a contorcer-se, como criatura, nas convulsões das vagas que por todos os lados a espancavam, estoirando-lhe no casco, enrodilhando-se no corpo, no jeito de lho quererem abafar, estrangular, matar. (…)
E lutava. Lutava agarrado ao esparrela, na ânsia de dominar a lancha, safá-la às vagas de través, tomar rumo de esperança naquele deserto negro de incertezas tumultuosas. Lutava – esgotando a carga de água que andava no poção, lhe lambia os pés, subia a meio das canelas. Lutava – por vencer os espectros do medo a borbulharem-lhe nas veias, a cocegarem-lhe no coração. (…)
Pobres! Pobres companheiros!
(…)
- Saímos onze do Cais do Pico (…) e quatro são os que restam. (…)
- E agora tudo se acabou!
- Não! Mil vezes não! Aqui, nada se acabou, porque tudo vai começar de novo!


Três dias. Foram três dias. Ou foram três séculos? Ou três milhares de séculos? (…)
- O homem, que é homem, não há nada neste mundo que o possa vencer, senão a morte. E nós estamos vivos! (…)
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Dias de Melo, Mar Pela Proa, 1973
(em memória dos baleeiros que pereceram no desastre do canal)

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