Tuesday, March 13, 2007

O gémeo e a sombra - João de Melo

Eu, que gosto tanto do mar e da sua voz que por vezes adivinho até no encadeamento obscuro dos meus sonhos, tenho por hábito passear sozinho ao longo da praia, de onde posso admirá-lo ou ficar a ouvi-lo sob a luz branca dos fins de tarde. Vou por ali fora, sozinho, entregue aos meus pensamentos, caminhando ao rés das fímbrias de água que as ondas baldeiam sobre a areia húmida, tornando-a plana e lisa como vidro. Recebo do mar a sua paz azul que me entra pelos olhos e que enche de inconfessáveis segredos o meu coração. Sinto-a como um suspiro na pele. A voz do mar traz até mim essa música do indefinido que por certo existe por detrás do silêncio, nas regiões da alma e no limite extremo do ser. Ouço nela a minha mãe cantar. (...) Não sei que outras coisas escuto: se o infinito que se foi embora para sempre com ela, se o princípio de mim mesmo no corpo materno, se tão-só as já longínquas histórias da minha infância.
Desde que ela morreu, creio absolutamente no meu regresso ao mar. Porque a vida da minha mãe não terminou ainda; apenas se mudou do júbilo vivo da terra para as tais regiões do espírito que agora caminha sobre as águas. (...)
Penso nisso todas as vezes que o mar me chama para junto de si e eu me ponho a passear na praia, de cá para lá e de lá para cá, à frente das ondas. (...)
Inundam-se-me então os pés de espuma e areia. Só o mar é grande. E só ele me transmite o sentimento da sua grandeza a perder de vista: uma paz cansada e tranquila, o tempo numa única mistura de mágoa, alegria e água, da qual se sustenta a minha alma. Todo ancorado em mim, e comigo, o mar. No coração, nas veias. Como uma seiva que, em árvore, irrigasse de sal e de paz a minha cabeça.
(Hoje, então, esta enormíssima dor de mar!... Algo como uma saudade muito antiga, mas em presença dele. Como quando, enfim, estando nós perante a pessoa amada de que vamos ter de separar-nos, o coração se enche de uma dor ausente e futura, de uma melancolia que ainda está para chegar. Na hora da despedida, todos os amores se tornam maiores do que a própria vida: esse, precisamente, o meu caso.)
Enquanto caminho pela areia adiante, o som dos meus passos entra no ruído e no movimento das ondas, extingue-se na sonatina do mar. Leva-o comigo a brisa. Porque a brisa é tão-só um elemento de mistura, o lugar de encontro de duas vozes que não se dissolvem nem se fundem uma na outra. A minha voz é o silêncio. E a voz do mar transforma-se numa substância líquida e sonora que se expande por cima da minha cabeça. Sempre que assim acontece, deixam de existir para mim o céu, as cores da paisagem, os ruídos do mundo que passa na estrada, lá muito ao cimo da praia. E não há mais ninguém sobre a face da Terra. Só eu perante esse mar aéreo e superior que me fecha por dentro da concha da sua abóbada. Torno-me nele eterno e universal.
Saindo de dentro de mim, vou até ao limite de uma outra dimensão que não me pertence. Em volta, fica a pairar o silêncio todo do mundo. E então deixam de passar nuvens e aves no céu. Também o firmamento não existe. Mesmo o vento já não é aquele ser vivo que viaja de um continente para outro. Apenas o azul e eu perante esse absoluto de mar que será talvez o princípio e o fim das coisas criadas por Deus. Ou pelo Diabo, nunca o soube ao certo.
Pela areia adiante, caminharei pois até ao infinito de mim mesmo. Sozinho com os meus pensamentos. Mas pensar cansa tanto como levar um peso morto dentro da cabeça. E dói como um espinho encravado num calcanhar. Toda a vida me tem doído pensar. Paro, afasto de mim os pensamentos. Sem eles, os olhos ficam mais lúcidos; e o sofrimento deixa de pesar sobre o coração. (...)
Estendo a mão à minha sombra, vejo que ela corresponde ao gesto: a mão do meu irmão une-se logo à minha, como se desde sempre fosse a parte que lhe faltava. De mãos dadas, caminhamos ambos para o mar. Vamos pela água, vamos sobre as águas, e depois pousamos nelas como pousam os anjos ou as aves ao caírem do céu com a tarde. Logo a seguir, entramos no doce imaculado silêncio do mar - cada vez mais silêncio, e mais doce à medida que descemos ao fundo dele. Além do silêncio, o escuro. Mas é do fim das trevas do mar que de novo se ergue vinda direita a nós, a canção da nossa mãe. A sua voz é outra vez tão nítida como aquela laranja de Lua que nos envia o luar nas noites de Setembro. Sentimos as mãos dela em volta do nosso corpo-sombra, e depois a afagarem-nos a cabeça. Por fim, a mãe abraça-nos contra o seu imenso seio oceânico, o mesmo de outrora, pegando-nos de novo a ambos ao colo, um em cada braço - e nós lá vamos com ela não sei bem para onde, talvez para um lugar marinho qualquer, um lugar de ausência que é suposto ser o sítio das mães mortas que perduram cantando sob o mesmo sol branco do mar - o qual acende agora toda a luz sobre a praia e aquece na minha alma a dor, a única esperança de me salvar.
O gémeo e a sombra in As coisas da alma - João de Melo
martadutra7@gmail.com

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