Saturday, March 17, 2007

Movimento de partida - João de Melo

Foto: Marta Dutra - Horta


Creio que o primeiro movimento da infância foi o da partida. (Mais tarde, compreendi que era o movimento total e definitivo dos Açores: o do seu despovoamento). Conheci-o quando as pessoas das casas vizinhas entravam numa espécie de contagem decrescente de tudo o que então as rodeava. Começavam por despedir-se do mar, da agricultura, das vacas, dos instrumentos e ofícios, e depois paravam ao canto de cada rua, com uns olhos subitamente saudosos e tristes, como se estivessem para separar-se não da aldeia e da família, mas da própria vida. Um dia, manhã muito cedo, acordámos com os seus agudos e lancinantes gritos de náufragos. Corremos à porta da rua e ficámos a assistir ao espectáculo dessa dor única e familiar dos que se iam embora para longe. Havia um táxi parado à porta, com o motor a funcionar, e o homem do táxi ajudava a acomodar as malas no porta-bagagem: parecia indiferente aos gritos, porque era a única pessoa com os olhos enxutos e o rosto sereno - mas tinha também uma palidez fria e matinal, a denunciar o embaraço daquelas despedidas. Quando o táxi subiu a Rua Direita, vi os lenços a acenar, ouvi os gritos dos que ficavem, e enchi-me de uma vaga dor de alma, ao mesmo tempo alheia e saída do fundo das minhas lágrimas. Um dia seria a minha vez de ficar ali e dizer adeus à família, ou de ser eu a partir da minha terra, rumando aos caminhos, aos barcos e aos aviões da emigração.
O escoamento da minha família da ilha para fora, iniciou-a a tia Urbana, ao decidir, quase de um dia para o outro, embarcar para o Brasil, numa fuga madrugadora e clandestina. Tomaria o barco para Lisboa, depois um avião para S. Paulo, e assim se perderia da ilha e da nossa memória dela. Mal me recordo do seu rosto seco e pequenino, tão circunspecto como o do meu pai. Mas lembro-me perfeitamente que a vimos partir à frente da camioneta do Nordeste, tão cedo quanto o permitiam as primeiras luzes da manhã, sendo a sua intenção andar um bocado de caminho até ser apanhada na estrada, para assim poupar o preço de meio bilhete na passagem para a cidade de Ponta Delgada.
A tribo da família despediu-se dela à ponta da freguesia, de saída Para o Caminho Novo, e ficou a assitir à lenta e progressiva extinção na maçã rosada do dia e do destino. Vi-a subir a rampa do Caominho Novo, voltar-se de vez em quando para trás, dizer adeus, limpar as lágrimas ao lenço com que acenava; desapareceu no alto da curva, onde a estrada começava a descer para a ribeira da Salga, e nunca mais voltei a ver o seu pequeno rosto de símio. Porém os adultos que comigo estavam puseram-se a espiar-lhe os passos pela estrada abaixo. Instigaram-me a abrir bem os olhos, a vê-la lá muito ao longe, descrevendo a curva do Redondo, passando entre os manchos de hortênsias azuis que muravam a estrada. Diziam que lá ia ela, com a sua cabeça a dar a dar, olhando em frente, sempre e só em frente. Eu, que deixara de vê-la, concluí que a minha tia Urbana era afinal uma questão de fé. Todos precisavam de acreditar na partida e na passagem dela, tanto quanto ainda hoje eu creio na sua existência brasileira. Por isso decidi também mentir a mim próprio e dizer aos outros que sim: era verdade, eu continuava a avistá-la ao longe, nos confins da estrada e do destino. Para que me acreditassem, acenei-lhe com grandes e repetidos gestos de adeus e despedida, como faziam os tios e os primos que ali tinham vindo para a chorar. Contudo, bem no fundo da alma, apenas me despedia da infância e da família, do tempo e da idade - os quais nunca mais pararam de perseguir-me, de me levar no vento, de comigo se perderem entre memórias, prazeres, sombras, fios, ecos, claridades, amarguras da vida.
Movimento de partida - João de Melo in Boletim Cultural Fundação Calouste Gulbenkian, Dez. 1994
martadutra7@gmail.com

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