Thursday, March 08, 2007

Canto de mim mesmo - XLVI

Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, e nunca fui medido e nunca serei medido.
A minha viagem é eterna, (venham todos ouvir-me!),
Os meus sinais são de uma gabardine, bons sapatos e um cajado que cortei no bosque,
Nenhum dos meus amigos se instala na minha cadeira,
Não tenho cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo ninguém à mesa de jantar, à Biblioteca, à Bolsa,
Só te conduzo a ti, homem ou mulher, a um outeiro,
A minha mão esquerda aperta-te a cintura,
A minha mão direita assinala a paisagem dos continentes e o passeio público.

Nem eu nem ninguém pode percorrer por ti esse caminho,
Deves percorrê-lo por ti mesmo.

Não fica longe, está ao teu alcance,
Talvez tenhas andado por ele desde que nasceste e não o saibas,
Talvez fique em toda a parte, na água e na terra.

Carrega os teus farrapos, meu filho, e eu carregarei os meus, apressêmo-nos,
Chegaremos a maravilhosas cidades, chegaremos às nações livres.

Se estás cansado, deixa-me levar os fardos, e põe a tua mão na minha anca,
E no devido tempo hás-de retribuir-me,
Pois já que partimos nunca poderemos descansar.

Hoje, antes do alvorecer, subi a uma colina e olhei os céus e as constelações,
E perguntei ao meu espírito: Quando abraçarmos essas orbes, quando tivermos
o prazer e o saber de quanto nelas há sentir-nos-emos realizados e satisfeitos?
E o meu espírito respondeu: Não, se alcançarmos esses cumes é só de passagem,
é só para continuar mais além.

Tu também interrogas e eu escuto,
Respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti.

Senta-te um instante, meu filho,
Aqui tens bolachas para comer e leite para beber,
Mas logo que adormeças com a tua roupa fresca, dar-te-ei um beijo de
despedida e abrir-te-ei a porta para que partas.

Tempo que baste já sonhaste os teus sonhos maus,
Agora afasto as remelas dos teus olhos,
Deves habituar-te ao esplendor da luz e de cada momento da tua vida.

Muito tempo rondaste timidamente a praia agarrado a uma tábua,
Agora quero que sejas um nadador intrépido,
Que saltes no meio do mar, que te ergas outra vez, que me faças sinal, grites
e rias enquanto a água cai dos teus cabelos.

Walt Whitman in Canto de Mim Mesmo

martadutra7@gmail.com

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